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Bisneta de Joseph Drouhin, Véronique Drouhin é a enóloga-chefe de um dos mais reverenciados domaines da Borgonha. A maison fundada por seu bisavô é hoje uma das maiores proprietárias de terras da região, com 73 hectares de vinhedos distribuídos em todas as denominações e nas principais apelações, incluindo Clos de Vougeot, Clos des Mouches e Corton-Charlamagne. De Chablis, onde fica a sede da vinícola, à Côte de Nuits e Côte de Beaune, à Côte Chalonnaise, classificados em sua grande maioria como Premier e Grand Crus, e cultivados de maneira biodinâmica.


Véronique graduou-se em enologia pela Universidade de Dijon com especialização na uva Pinot Noir, a nobre variedade borgonhesa. Por quase três décadas trabalhou ao lado de Laurence Jobard, a primeira enóloga mulher da Borgonha, então responsável pelos vinhos de Drouhin. Em 1988, vinificou junto com seu pai, Robert Drouhin, o primeiro vintage do Domaine Drouhin no estado americano do Oregon. Desde então, Véronique tem produzido vinhos considerados por especialistas entre os mais refinados exemplares de Pinot Noir e Chardonnay fora da França. É o caso do Roserock Chardonnay 2016 – um vinhedo muito especial de solos vulcânicos muito antigos, localizado na AVA Eola-Amity Hills –, eleito pela Wine Spectator um dos top 100 de 2018.


Meu bisavô Joseph Drouhin, meu avô Maurice, meu pai, Robert, e agora meus irmãos e eu não nunca deixamos de buscar a excelência em nossos vinhos. Nossa filosofia é produzir vinhos elegantes que reflitam seu lugar de origem.

Na Borgonha, Véronique trabalha junto com os irmãos Frédéric, Philippe e Laurent para perpetuar a tradição iniciada por seu avô Maurice Drouhin em elaborar os mais finos e elegantes tintos e brancos desta celebrada região da França. São vinhos de um equilíbrio e finesse, dotados de um evidente sentido de origem e pureza, e capazes de oferecer prazer imediato quando jovens ou evoluir magicamente por 40 anos ou mais, para alcançar uma soberba complexidade e um sedutor caleidoscópio de aromas.


Nesta entrevista, a enóloga da centenária maison comenta os efeitos causados pelas mudanças climáticas nos vinhedos da região. Fala também sobre a abordagem biodinâmica de cultivo e de seus benefícios para o vinho, e de como os Borgonhas têm despertado cada vez mais o interesse de consumidores para deixar de ser apenas um privilégio de conhecedores.


Muitas pessoas têm uma imagem de que os vinhos da Borgonha são apenas para conhecedores. No entanto, alguns Borgonhas podem ser apreciados ainda jovens, são fáceis de beber e gostar. Por que os vinhos da Borgonha têm essa reputação de serem difíceis de beber e conhecer?
Acho que a resposta para esta pergunta está no fato de que a Borgonha é uma região muito pequena e sua produção é muito pequena também se comparada com as demais regiões produtoras ao redor do mundo. Além disso, os vinhos mais comentados pelas mídias especializadas e pela maioria dos consumidores são quase sempre os famosos e raros Grands Crus, que representam somente 1% dos vinhos da Borgonha. É possível encontrar Borgonhas encantadores por um preço que cabe no bolso, tanto entre os brancos como os tintos. Os vinhos da Borgonha ainda estão entre os mais reputados do mundo, mas a ideia de que eles são difíceis de beber mudou. As pessoas hoje estão cada vez mais tomando conhecimento de que os Borgonhas tintos são elaborados com a Pinot Noir, uma casta delicada e adorável, apesar do nome da uva não aparecer no rótulo. Nós ainda vendemos nossos vinhos com o nome da sua denominação de origem, como por exemplo, Volnay, Beaune, Chambolle-Musigny, etc... A mesma coisa acontece com os nossos brancos, de Chardonnay, comercializados como Rully, Meursault, Puligny-Montrachet, etc...


Por que um nome como Joseph Drouhin no rótulo é uma garantia de vinhos de qualidade?
Desde a fundação do domaine, em 1880, a qualidade tem sido nosso maior compromisso. Meu bisavô Joseph Drouhin, meu avô Maurice, meu pai, Robert, e agora meus irmãos e eu não nunca deixamos de buscar a excelência em nossos vinhos. Nossa filosofia é produzir vinhos elegantes que reflitam seu lugar de origem. A viticultura sempre foi também um foco de alta importância para o domaine.


Vocês empregam a agricultura biodinâmica em muitos de seus vinhedos. Como essa prática afeta a produção dos vinhos?
Meu irmão Philippe, que é o responsável pelo trabalho em nossos vinhedos, acredita que é possível buscar uma resposta natural para um problema natural. Para ele é crucial respeitar o solo para que a vida dos micro-organismos que nele habitam seja preservada, e as fontes de água. É possível perceber o resultado na adega e nos vinhos. Ano após ano, percebemos um equilíbrio maravilhoso nos tintos e brancos que produzimos.

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A Borgonha tem sofrido muito com a redução nas colheitas das últimas safras. Será esta uma nova realidade para a região? Como a qualidade foi afetada nos últimos anos?
Nós estamos enfrentando, assim como o resto do mundo, distúrbios climáticos. Se isso vai se estabelecer como um novo padrão de normalidade, então teremos de nos adaptar. As últimas geadas e fortes chuvas afetaram a quantidade, mas não tiveram efeito na qualidade. Um videira com baixo rendimento dá vinhos melhores, mas não precisa ser tão baixo como aconteceu nos últimos dois anos.


Por que uma família que já produz vinhos nos melhor terroir possível para a Pinot Noir decidiu arriscar-se a produzir vinhos no Oregon? Quais são as principais diferenças entre os vinhos da França e dos Estados Unidos?
Nós conhecemos o Oregon há 30 anos e descobrimos uma região extraordinária para a Pinot Noir. O tempo nos provou que estávamos certos. Atualmente muitos outros produtores da Borgonha estão investindo no Oregon. Com relação às principais diferenças entre os vinhos da França e os dos Estados Unidos, acho que ambos produzem Pinot Noir refinados e elegantes. Entretanto, no Oregon, os vinhos tendem a mostrar mais fruta escura e especiarias com uma textura maravilhosa, enquanto na Borgonha, os vinhos permanecem como os mais sutis e complexos Pinot Noir do mundo.


Que características devemos esperar de um verdadeiro Grand Cru?
Equilíbrio, complexidade, elegância, um final muito longo, tanto nos Grands Crus tintos como nos brancos.


Qual é na sua opinião o maior achado entre os vinhos de Joseph Drouhin?
O Clos des Mouches, claro! Tanto o tinto como o branco, mas também qualquer vinho nosso de Chambolle Musigny. Em termos de vinhos de boa relação qualidade/preço, o Côte de Beaune tinto, o Pouilly-Vinzelles branco ou o Gevrey-Chambertin tinto.

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Um dos maiores nomes do vinho português, Luis Pato é o “revolucionário da Bairrada” — o genial enólogo que domou a Baga e conseguiu produzir vinhos de classe internacional, ao nível dos melhores do mundo, com uma casta antes conhecida por dar vinhos rústicos, extremamente tânicos e ácidos. Seus fantásticos tintos e brancos estão sempre entre os melhores de Portugal. Seu incrível Vinhas Velhas Tinto foi comparável favoravelmente a um grande Bordeaux por Jancis Robinson. Luís Pato é uma fonte incessante de inovações, tendo criado seus famosos “Bairrada de Vinhedo”, o célebre “Pé Franco”, espumantes muito especiais e muitas belas novidades recentes. Além de enólogo, um “pensador do vinho”, Luís Pato nos concedeu esta interessante entrevista, que você confere ao lado.

Parece incrível, mas só recentemente a crítica internacional descobriu o vinho português. Qual impacto esta descoberta teve na produção local?

Em primeiro lugar a culpa não foi dos estrangeiros mas dos portugueses, que privilegiavam o baixo preço em vez de promoverem seus vinhos com qualidade elevada, e sobretudo a enorme diversidade que pode ser encontrada nos vinhos lusos — não apenas por virtude da grande quantidade de uvas indígenas, mas também dos solos, climas, pessoas e história! Em Portugal, como nos países europeus de referência — ou seja, no Velho Mundo — as regiões estão associadas a uma, duas ou três uvas que identificam os seus vinhos... Não é só na Borgonha que quando se degusta um tinto se sabe que é um Pinot Noir. Também na Bairrada, por exemplo, quando se degusta um tinto, se procura que ele seja um vinho da uva Baga. Foi ela que se adaptou ao longo dos séculos às condições locais. Hoje, quando estamos numa feira ou numa apresentação, todo mundo nos procura porque sabe que somos os “Mr. Baga”, e que podem degustar vinhos dessa uva, jovens mas também com mais de 30 anos! Coisa rara nos dias de hoje, em que o mercado só oferece vinhos do ano.

A Bairrada e a uva Baga não tem o “apelo internacional” de outras uvas e regiões. Qual é o melhor modo de mostrar as virtudes desta casta tão especial?

A uva Baga é da “família” estilística de uvas conhecidas internacionalmente como a Nebbiolo, a Sangiovese Grosso, a Syrah ou mesmo a Pinot Noir, dependendo da idade do vinho. A Baga começa com o estilo mais tânico do Barolo/Barbaresco, e aos 12 anos lembra por vezes um Syrah do norte da Côte du Rhône. Após os 15 anos de envelhecimento já lembra, pela acidez, fumado e elegância, um Brunello di Montalcino, e após os 20 ou 25 anos, dependendo da safra, apresenta os aromas de um Pinot borgonhês, por virtude de ser plantada em solo argilo-calcário, igual ao da Borgonha.

Podemos dizer facilmente que a sua vinícola é um verdadeiro laboratório de técnicas de vinificação. O que você aprendeu em todos estes anos de estudos?

Ao longo dos mais de 35 anos de aprendizagem sobre a uva Baga e sobre os dois solos presentes na região — o arenoso, mais próprio para vinhos brancos e espumantes pela acidez que confere aos seus vinhos, lhes fornecendo a elegância e leveza fundamentais para estes tipos de vinho; e o argilo-calcáreo, que desenvolve uma enorme complexidade, associando um corpo mais poderoso a um caráter fumado (que só esse solo fornece aos vinhos nele criados) — concluí que a uva Maria Gomes mantinha uma acidez natural que dispensa qualquer acidificação (que é quase generalizada nas regiões vinícolas portuguesas, à exceção das regiões do Norte), produzindo um grau de maturação natural que exclui também qualquer "chaptalização”, por sua vez sempre presente nos vinhos de climas mais frios. Podemos fazer vinhos com o mínimo de intervenção na vinícola. Quanto à uva Baga, com a invenção do processo de duas colheitas na mesma parreira em dois tempos distantes de um mês, podemos suavizar a proverbial agressividade que os seus vinhos apresentavam quando elaborados com rendimentos mais elevados, tanto na acidez como no verdor dos seus taninos. Com o controle de rendimento a 30 hl/ha ou mesmo a 6 hl/ha (como ocorre na Baga em Pé Franco), podemos não só criar vinhos com enorme capacidade de envelhecimento, como também “educados ao palato" logo na sua juventude.

Qual é o segredo de um bom espumante? É um vinho que envelhece bem?

Um espumante é o inverso de um vinho tinto, porque se este precisa mostrar uma enorme concentração de carácter, necessitando assim de baixos rendimentos, um espumante necessita de um rendimento elevado para se mostrar elegante e conservar uma boa acidez. Isto é conseguido por virtude dos cachos atingirem um grau de maturação muito inferior aos destinados para a produção de vinhos brancos ou tintos. Ontem bebi o nosso espumante com Baga e Maria Gomes da safra de 1992.... estava delicioso com o seu toque oxidativo resultante da idade. Lembrava alguns ícones da região de Champagne que procuram mostrar esse carácter oxidativo!

O que distingue um grande Baga de um vinho comercial? Quais as vantagens de vinificá-la em cortes com outras uvas, como por exemplo no Baga + Touriga?

Se há vinhos que não podem ser comerciais, esses são os de Baga, porque para atingirem um nível qualitativo ímpar, a sua produção por parreira tem de ser muito reduzida. O meu vinho de entrada puramente Baga, o Vinhas Velhas, não pode produzir mais do que 4 toneladas por hectare, o que comparado às 20 ou 30 toneladas de um vinho comercial, diz bem de como não pode ter um preço sequer próximo. Acresce que um vinho de Baga pura necessita de algum tempo de envelhecimento nas pipas de carvalho e na garrafa. Esse é o motivo pelo qual meu vinho mais simples tem no seu corte a uva Touriga Nacional: porque esta facilita seu consumo mais precoce e evita o uso do estágio em madeira, já que os taninos suaves e o perfil aromático da Touriga ajudam a suavizar o corte.

Seus brancos já foram apontados entre as melhores compras de Portugal, competindo com vinhos que custam até 4 vezes mais. O Vinhas Velhas, por exemplo, foi apontado como “uma belíssima pechincha” por Robert Parker. Quais as características dos brancos da Bairrada, e qual é a aptidão gastronômica destes vinhos?

A Bairrada é naturalmente uma região de brancos e espumantes... os tintos são mais de acordo com a safra, e exigem um grau de cuidados suplementares. A região pode produzir os vinhos brancos mais equilibrados de Portugal, com grau alcóolico que não excede os 12% - 12,5%, e com uma acidez natural que lhes imprime uma longevidade única no panorama mundial (estamos a lançar este ano a safra 1991 do Vinhas Velhas branco!), mas também com uma maturação que mostra aromas frutados e florais que harmonizam à perfeição com frutos do mar, pescado e em alguns casos com queijo. Ou mesmo leitão! O Vinha Formal — para dar um exemplo que aprendi na Bélgica — em alguns restaurantes é o vinho recomendado para queijos que oferecem no menu harmonizado. Nos últimos Vinhas Velhas Branco, Jancis Robinson sempre se pergunta como o vinho é tão barato... para a qualidade que oferece... considerando os outros brancos do resto do mundo.

Quais são as maiores qualidades que você busca em um grande vinho?

Nos vinhos tintos e brancos eu busco caráter, equilíbrio, harmonia e concentração. Já nos espumantes eu procuro elegância. Enfim ... busco vinhos que ofereçam prazer.

Para um enófilo leigo, que não conhece os vinhos da Bairrada/Beiras, o que ele deveria saber antes de provar um vinho de Luís Pato?

Os nossos vinhos não são vinhos para beber assistindo televisão ou distraído. São vinhos para meditar e usar em harmonia com comida... porque gosto de pensar que eu sou um chef de líquidos: crio aromas, sabores e níveis de complexidade para completar os prazeres dos sólidos que nos alimentam, fornecendo uma sensação espiritual à comida. São vinhos que podem ser bebidos ainda jovens, mas que também dão grande prazer ao longo de seu envelhecimento, mudando de perfil, se tornando mais espirituais com o tempo, exigindo mais meditação sobre a sua "uniqueness"!

Qual é a sua opinião sobre a nova moda de vinhos laranja e naturais?

Gosto dos dois. O meu problema é encontrar um que não me agrida os conhecimentos sobre o vinho. Curiosamente faço um vinho que chamo de BAGA NATURAL, apenas porque é feito dessa uva sem qualquer aditivo externo, quero dizer, sem adição de sulfuroso, leveduras, açúcar, ácido, bactérias, nem colagem alguma... só o resultado da fermentação dos cachos dessa uva. Este ano, para celebrar o nascimento da minha neta Madalena no ano passado (2016), fiz um vinho laranja em cuba de inox (não usei a tradicional ânfora de barro), mas os cachos que usei não eram de uva branca, como é habitual nos vinhos laranjas. Usei, claro, a uva Baga, que previamente perdeu a cor com a adição de um “terrível agente químico” que todo mundo respira.....o AR!

Além da Baga, quais uvas portuguesas que você acha que mereciam ser mais conhecidas?

Julgo que a Touriga Nacional já é uma uva de referência mundial, mas há ainda outras, como as tintas Castelão da região de Palmela, a Sousão no Douro, a Rufete da Beira Interior, a Touriga Francesa (chamada Franca na legislação portuguesa, e que nada tem de francesa, porque é um cruzamento natural da Touriga Nacional com a Tinta Mourisca do Douro!). Entre as brancas, a Alvarinho, a Loureiro e Avesso, no Minho; Encruzado no Dão; Bical e Cercial da Bairrada; Malvasia Fina no Douro; Sercial, Verdelho e Terrantez na Madeira; Moscatel Roxo nas Terras do Sado; e a Maria Gomes, que também se chama Fernão Pires e que é a uva branca mais plantada em Portugal.

Em matéria de produção de vinhos, o que era novo e ficará velho e o que era velho e ficará novo (de novo)?

O alto teor alcóolico e o uso dos aromas do carvalho, sobretudo americano, para “aromatizar” e “adoçar” os vinhos vai ficar, em breve, pelo caminho, porque vamos voltar aos vinhos com graduação alcóolica entre os 12% e os 13.5%, dependendo se são brancos ou tintos. É só ver o que está acontecendo em Bordeaux com a descida do nível de álcool para os mesmos níveis do final da década de 80 do século passado... Isso aconteceu porque os novos vinhos de teor alcóolico mais elevado já evidenciavam uma enorme queda em seu potencial de envelhecimento!

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OLHOS:

A uva Baga é da mesma família estilística de uvas como a Nebbiolo, a Sangiovese Grosso, a Syrah e a Pinot Noir.


Se há vinhos que não podem ser comerciais, esses são os de Baga, porque para atingirem um nível qualitativo ímpar, sua produção por parreira tem de ser muito reduzida.


A Bairrada pode produzir os vinhos brancos mais equilibrados de Portugal, com grau alcóolico que não excede os 12% – 12,5%, e com uma acidez natural que lhes imprime uma longevidade única no panorama mundial. Estamos a lançar este ano a safra 1991 do Vinhas Velhas branco!


Nos vinhos tintos e brancos eu busco caráter, equilíbrio, harmonia e concentração. Já nos espumantes procuro elegância. Enfim ... busco vinhos que ofereçam prazer.


Nossos vinhos não são vinhos para se beber assistindo televisão ou distraído. São vinhos para meditar e usar em harmonia com a comida.


Gosto de pensar que eu sou um chef de líquidos: crio aromas, sabores e níveis de complexidade para completar os prazeres dos sólidos que nos alimentam.

Julgo que a Touriga Nacional já é uma uva de referência mundial, mas há ainda outras, como as tintas Castelão da região de Palmela, a Sousão no Douro, a Rufete da Beira Interior, a Touriga Francesa.

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É impossível não associar o vinho chileno de qualidade ao pioneirismo de Aurelio Montes. Enólogo e sócio-fundador de uma das mais premiadas vinícolas do Chile, a Viña Montes, ele teve papel crucial no desenvolvimento da indústria de vinhos de seu país. Criador do Montes Alpha Cabernet Sauvignon, primeiro vinho chileno de alta qualidade, Aurelio tem o espírito aventureiro e está sempre se lançando em novas descobertas. Seus feitos repercutem mundo afora. No ano passado, ele foi homenageado com o prêmio ‘Innovator of the Year’ do Wine Star Awards, organizado pela revista Wine Enthusiast. Seus vinhos revolucionários e o “modelo de negócio centrado na inovação”, segundo a Wine Enthusiast, transformaram a Viña Montes em uma das mais importantes vinícolas do Chile. Presentes em mais de 100 países, os vinhos elaborados por Montes traduzem sua incansável busca por qualidade e novos terroirs. Nesta entrevista, ele discute, entre outros assuntos, o futuro do vinho chileno.

Quando a Viña Montes foi fundada, a qualidade e a imagem do vinho chileno eram muito diferentes do que se vê hoje. Qual foi o papel da criação de um vinho como o Montes Alpha para a imagem do vinho chileno no exterior?

Nosso Montes Alpha Cabernet Sauvignon 1987 foi o primeiro vinho chileno de grande complexidade, elaborado a partir de vinhedos antigos e utilizando barricas novas de carvalho. Até o momento de seu lançamento, não existia nenhum vinho chileno desta qualidade. Como enólogo, eu sempre soube que o Chile tinha potencial para produzir grandes vinhos. Nosso primeiro Montes Alpha confirmou isso e abriu caminho para um novo mercado: permitiu que o Chile entrasse em uma nova fase, com o surgimento de vinhos de qualidade cada vez maior. Até então, não era isso que se buscava.

O que distingue um vinho chileno de qualidade de um vinho comercial? Que características o consumidor deve buscar em um grande vinho do Chile?

Um vinho de qualidade representa fielmente a mão do enólogo. É um vinho que busca a perfeição em parâmetros enológicos — como, por exemplo, ser um vinho seco, com baixo açúcar residual e boa acidez — sendo também agradável de beber, mas não necessariamente feito para o paladar de todos os consumidores. Um vinho comercial é produzido seguindo os parâmetros da indústria, que busca sempre o volume em vendas. Os vinhos comerciais podem ser mais doces, com muita ou pouca madeira, mas não são necessariamente grandes vinhos. Os grandes vinhos do Chile vêm de zonas com Denominação de Origem destacada, que pode ser Vale de Colchagua, Zapallar, Casablanca. A origem da uva é o primeiro passo na indicação de um vinho de qualidade, e o preço também é um bom parâmetro para posicionar a qualidade de um vinho. Depois, as informações contidas no rótulo — por exemplo, sobre a maturação do vinho em barricas de carvalho, de preferência francês, sobre os rendimentos utilizados, etc — são indicadores de um vinho de qualidade, de um grande vinho do Chile.

Há alguns anos era difícil falar em diferentes terroirs do Chile, apesar da diversidade de solos e climas existir desde sempre. O que mudou para que os terroirs pudessem ser revelados aos amantes do vinho?

Para poder ter acesso aos terroirs mais distantes, e utilizar seu potencial, é necessário um grande trabalho nos vinhedos, reduzir rendimentos e transportar as uvas de lugares longínquos para a bodega. Tudo isso tem um custo muito elevado, que apenas hoje pode ser traspassado ao consumidor. É possível oferecer uma qualidade superlativa de vinho apenas se o cliente estiver disposto a pagar por ela.

As diversas degustações às cegas com jornalistas e especialistas comparando vinhos chilenos com os grandes vinhos do mundo provaram que os melhores vinhos chilenos são capazes de competir de igual para igual com o que existe de melhor em nosso planeta. Por outro lado, para o grande público, a imagem do vinho chileno ainda não reflete totalmente esta percepção: de poder igualar, por exemplo, a qualidade de um grande Bordeaux.

O que falta ainda para que o vinho chileno conquiste esse espaço? E que cuidados devem ser tomados para que o prestígio já conquistado não seja perdido?

O Chile é relativamente novo na produção de vinhos de qualidade, se o compararmos com regiões como Bordeaux, onde se produz vinho há muitas centenas de anos. Apesar disso, nosso país cresceu em qualidade a passos gigantescos! O progresso foi realmente muito rápido. Nossos enólogos visitaram e produziram vinhos em diferentes lugares do mundo, conhecendo o manejo e a produção de vinhos fora do Chile, e incorporando as melhores práticas em suas vinícolas. Este conhecimento maior nos permite produzir hoje vinhos tão bons ou melhores que os estrangeiros, mas que por causa de sua pequena produção, ainda não são tão conhecidos. Contudo, eles lentamente estão ganhando seu espaço. Para manter a reputação desses vinhos ícones — os melhores de cada vinha — é preciso produzi-los apenas quando a qualidade é realmente superlativa. Nossos ícones Montes Alpha M, Montes Folly, Montes Purple Angel e Montes Taita são comercializados apenas se sua qualidade é indiscutível. Do contrário, concordamos em não produzir o vinho naquela safra, se ela não atender a qualidade que esperamos. Aguardamos a próxima grande safra, para que nossos ícones sejam sempre grandes vinhos, os melhores que podemos produzir.

interview "Nosso Montes Alpha Cabernet Sauvignon 1987 foi o primeiro vinho chileno de grande complexidade, elaborado a partir de vinhedos antigos e utilizando barricas novas de carvalho. Até o momento de seu lançamento, não existia nenhum vinho chileno desta qualidade."

Quais são as novas regiões chilenas com potencial para grandes vinhos?

Um ótimo exemplo é o Vale de Aconcagua, que está mostrando excelentes resultados — e onde atualmente possuímos o único vinhedo existente no maravilhoso e frio Vale de Zapallar. Ali produzimos Sauvignon Blanc, Chardonnay, Syrah e Pinot Noir. Também utilizamos uvas de Santo Domingo e Zapallar para produzir nossa linha Montes Alpha. Nossos melhores Sauvignon Blanc e Pinot Noir são provenientes do Vale de Aconcagua.

Em sua opinião, que próximos passos o vinho chileno deve percorrer?

Focar mais na qualidade que no volume, e que esta qualidade seja consistente e se mantenha com o tempo.

interview "Para manter a reputação dos vinhos ícones, é preciso produzi-los apenas quando a qualidade é realmente superlativa."

Qual a sua opinião sobre a casta País, que obteve êxito com parte da crítica especializada? Ela pode originar grandes vinhos?

A cepa País desperta o interesse principalmente de quem tem uma grande história com ela. Foi uma das cepas mais plantadas e características do Chile, e hoje foi resgatada principalmente por seu valor histórico, começando a originar vinhos a partir de processos de maior qualidade, que melhoraram sua expressão. Pode-se produzir vinhos interessantes com a País, mas não grandes vinhos, não vinhos comparáveis à qualidade de um grande Cabernet Sauvignon ou Syrah.

Se pensarmos em uma mesma casta, como por exemplo a Cabernet Sauvignon, quais são as diferenças entre os melhores vinhos do Chile e da Argentina? Quais são as vantagens de cada país para dar origem a vinhos de classe mundial?

O Chile tem um clima privilegiado que permite elaborar Cabernet Sauvignon com estilos distintos, a partir de vinhedos de clima frio ou quente, o que altera dramaticamente o resultado. Na Argentina o clima é predominantemente quente, o que permite dar origem, de forma natural, a grandes vinhos de taninos muitos sedosos, muito elegantes.

Você já elaborou vinhos nas mais famosas regiões do mundo, como Bordeaux e Napa Valley. Como esta experiência contribuiu para os vinhos da Viña Montes?

A curiosidade de criar novos vinhos fora do Chile, junto com a experiência de produzi-los em países tão diversos como Argentina, Estados Unidos e França, pelos quais tenho muito respeito, só confirmou o amor que tenho por meu país, seus lugares, terroirs e sua gente, fazendo-me apreciar ainda mais nossos vinhos. Viajar pelo mundo e compartilhar experiências com profissionais de países distintos sem dúvida ajuda a abrir a mente, a aprender como um bom terroir afeta a qualidade final de um vinho — a observar, aprender e aplicar esses conhecimentos em nosso país e em nossa bodega.

interview "Para poder ter acesso aos terroirs mais distantes, e utilizar seu potencial, é necessário um grande trabalho nos vinhedos, reduzir rendimentos e transportar as uvas de lugares longínquos para a bodega. Tudo isso tem um custo muito elevado."

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Filha primogênita de Angelo Gaja, Gaia Gaja tem conduzido com paixão e extrema competência a produção dos maravilhosos tintos e brancos elaborados por sua família em Barolo e Barbaresco, no Piemonte, e Montalcino e Bolgheri, na Toscana. Carismática, talentosa e enérgica como o pai, ela é no entanto mais doce, e tem brilho próprio. Não se nota nenhuma discordância entre os dois, e os olhos exigentes de Angelo parecem brilhar quando vê a filha conduzir uma degustação com desenvoltura. Apontada como uma das mulheres mais poderosas do mundo do vinho pela influente publicação inglesa The Drinks Business, a jovem comenta nesta entrevista como é participar do grande legado da família Gaja, os valores que norteiam seu trabalho na vinícola e sua opinião sobre o vinhos produzidos atualmente na Itália. Gaja é indiscutivelmente o maior nome do vinho italiano, com uma impressionante coleção de nada menos que 52 “tre biccieri” do Gambero Rosso e 57 vinhos classificados por Robert Parker com 95 pontos ou mais. Sobre a filha, o próprio Angelo comenta: “ela é melhor do que eu”.

É muito difícil de imaginar que uma pessoa com o sobrenome Gaja não venha a trabalhar com vinhos. Por outro lado, talvez a escolha não seja tão fácil, especialmente se pensarmos que ela, eventualmente, ocupará o lugar de uma lenda do mundo do vinho, como é o caso de seu pai, Angelo Gaja. Desde quando você soube que queria trabalhar na vinícola da família?

Desde sempre, acho. Sempre nos demos muito bem em família e o vinho sempre foi parte disso. O amor e os fortes laços que sempre senti por minha família fizeram com que eu já crescesse com o desejo de poder fazer parte disso — compartilhar dos sonhos deles, assim como fazer parte, levar adiante e até poder concluir os projetos de meu avô e meu pai. A minha irmã Rossana já trabalha comigo e logo meu irmão Giovanni se juntará a nós.

Na sua opinião, qual é a importância da tradição e da inovação na produção de vinhos de alta qualidade?

A tradição é o conhecimento e a experiência das gerações passadas, e por isso um guia importantíssimo e fundamental para entender os segredos de cada vinhedo, assim como as pequenas nuances de cada tipo de casta. É o patrimônio do tempo, que não pode ser comprado ou substituído. A inovação, por outro lado, também é importante porque o mundo está mudando a cada momento. Um exemplo disso é a mudança climática, que podemos perceber facilmente. Mas essas mudanças não estão limitadas à natureza. O nosso modo de consumir e apreciar um vinho também muda. Para poder evoluir e permanecer sempre atual, é necessário se comprometer a mudar cada dia um pouquinho o seu cotidiano.

O que torna um vinho melhor que outros, na sua opinião? Você acredita que um vinho possa ser perfeito?

A perfeição é algo muito subjetivo e, por isso, não pode existir de maneira objetiva! Por outro lado, existem alguns parâmetros objetivos e palpáveis que determinam a complexidade e consequentemente o valor de um vinho. Os vinhos que me apaixonam são vinhos que possuem corpo, mas também alma — são aqueles que incorporam a alma da terra, que muitas vezes é o que é chamado de terroir.

A uva Nebbiolo é sem dúvida uma das mais fantásticas castas do planeta, mas não é tão popular quanto algumas outras ao redor do mundo. Por que?

Eu não vejo problema nisso! O número de pessoas apaixonadas pela Nebbiolo ao redor do mundo tem crescido continuamente, e uma vez que um amante de vinhos venha a ser conquistado pela Nebbiolo, é um caminho sem volta. Ele nunca mais abandona esta uva! O número de fãs da Nebbiolo é cada vez maior, especialmente em países como Estados Unidos, Grã Bretanha, Escandinávia, Japão, Hong Kong, mas também em muitos outros países. Este movimento aconteceu, na minha opinião, principalmente por dois fatores: as safras no Piemonte têm sido melhores e mais regulares, proporcionando uvas de melhor qualidade; e, além disso, os consumidores têm tido cada vez mais interesse por vinhos de personalidade distinta, que se destaquem da grande maioria dos vinhos produzidos.

Você diria que uma boa matéria-prima é o suficiente para produzir um grande vinho? Qual é o segredo para colher uvas com uma qualidade impecável?

Mesmo sem falar nas características individuais do impacto de cada terroir em um determinado vinho, o caráter de um vinho depende fortemente do nível de maturação das uvas com as quais ele é feito. Se o produtor não souber discernir o momento do perfeito equilíbrio de maturação das uvas, é possível que o trabalho de um ano inteiro seja comprometido. A qualidade das uvas é extremamente importante.

"Quando provados sem comida, os vinhos mais doces e macios geralmente são os preferidos do grande público, mas os grandes vinhos são, sem dúvida, produzidos para serem servidos à mesa."

Você acredita que o aquecimento global mudou o estilo dos vinhos produzidos no Piemonte?

A mudança climática criou uma nova realidade. Mudaram as cartas que temos na mão para fazer uma jogada, e precisamos decidir como jogar para vencer. Neste novo cenário, é fundamental poder trabalhar com pessoas experientes e de grande capacidade, com senso crítico e grande atenção aos pequenos detalhes. Como disse o príncipe de Salina no livro O Leopardo, que retratava a aristocracia siciliana na época da unificação italiana, “precisamos mudar absolutamente tudo se quisermos que tudo permaneça exatamente como é.”

"A Nebbiolo tem cada vez mais fãs porque as safras no Piemonte têm sido melhores e mais regulares, proporcionando uvas de melhor qualidade; e, além disso, os consumidores têm tido cada vez mais interesse por vinhos de personalidade distinta, que se destaquem da grande maioria dos vinhos produzidos."

Muitos enófilos degustam grandes vinhos em provas às cegas, mas raramente tomam estes mesmos vinhos durante um jantar. Você acredita que é possível uma pessoa apreciar os vinhos da mesma maneira numa degustação técnica e durante uma refeição?

Eu tenho percebido cada vez mais que os vinhos com mais acidez e taninos presentes melhoram consideravelmente quando acompanhados por comida. Esses vinhos têm a capacidade de refrescar o palato e limpar a boca da gordura da comida. Quando acompanhados por comida, eles ficam melhores e mais completos. Por outro lado, quando provados sem comida, os vinhos mais doces e macios geralmente são os preferidos do grande público, mas os grandes vinhos são, sem dúvida, produzidos para serem servidos à mesa.

Todos os vinhos de Gaja, incluindo os brancos, envelhecem muito bem. Na sua opinião, quanto tempo as pessoas deveriam esperar para abrir uma garrafa dos seus vinhos?

Isso depende muito do gosto pessoal. A minha própria preferência depende da ocasião. Sinto prazer em tomar nossos vinhos com qualquer idade, jovens ou mais maduros! Por outro lado, acho que cada pessoa tem seu gosto particular, preferindo as características próprias de um vinho jovem ou maduro. São estilos distintos. É preciso decidir quando abrir uma garrafa com base no palato de cada um. Este é um ponto para o qual não existe certo ou errado.

Como compararia os vinhos que você produz no Piemonte com os elaborados na Toscana? Você vê alguma semelhança entre as castas Nebbiolo e Sangiovese?

Tanto a Nebbiolo quanto a Sangiovese têm em comum o frescor e a estrutura tânica, mas a Nebbiolo tem um caráter mais etéreo e essencial, com perfumes e sabores mais delicados, enquanto a Sangiovese é mais suculenta, com fruta mais evidente.

O que torna um bom vinho italiano distinto dos outros bons vinhos produzidos ao redor do mundo?

Não é mais possível generalizar o vinho italiano como sendo algo único e abrangente. Os vinhos italianos são incrivelmente diversos. Se tomarmos como exemplo um vinho do Piemonte e um da Sicília, temos a impressão que vieram de dois mundos diferentes. A riqueza de climas, solos e tipos de uvas diferentes tornam difícil pensar no vinho italiano como uma única entidade homogênea. Por outro lado, com o passar do tempo compreendi que os vinhos italianos realmente têm uma particularidade comum. Os vinhos franceses, por exemplo, são caracterizados pela delicadeza e um toque amanteigado, da mesma forma que a cozinha francesa usa manteiga em quase todas suas receitas. Já os vinhos italianos — da mesma forma como o azeite de oliva, que está sempre presente na culinária italiana — têm uma personalidade mais discreta, que não esconde o sabor da comida, de modo análogo ao azeite de oliva, que não oculta o sabor de nenhum ingrediente de uma receita.

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Jancis Robinson já afirmou em referência à sua posição na vinícola que seu pai “deve ter muito orgulho e nenhum pingo de preocupação com o futuro”. Como é para você ser parte integrante do legado da família Gaja?

Eu gostaria de agradecer os elogios da Jancis Robinson e espero poder fazer jus às gentis palavras dela. Para mim é uma experiência realmente maravilhosa trabalhar junto de minha família para exprimir da melhor forma a beleza de nossa terra.

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Luís Henrique Zanini, evidente e contagiosamente apaixonado pelo vinho, é o talentoso enólogo gaúcho da Vallontano, uma pequena vinícola artesanal brasileira que tem produzido alguns dos melhores vinhos do país. Ele nos concedeu uma entrevista, na qual faz um panorama da viticultura brasileira, comenta sobre os principais desafios para a produção de bons vinhos no país e valoriza o potencial dos espumantes brasileiros. Fala também de seu mais novo vinho, Oriundi, produzido em parceria com a vinícola italiana Masi.

Você se lembra da primeira vez que tomou vinho?

A primeira vez que bebi vinho foi na casa de meu avô Domenico Zanini. Era um vinho tinto. Como refrigerante era algo raro naquela época, a bebida das crianças era vinho misturado com um pouco de água e açúcar. Meu Deus, que sensação maravilhosa! Pouco tempo depois, lembro que quis bebericar aquele néctar puro. Se eu fosse traduzir a sensação que tive naquela época, citaria um trecho da obra de Nikos Kazantzakis: Zorba, o Grego. “Tendo tomado um copo de vinho, ele se virou para mim, alarmado: — O que é essa água vermelha, patrão? Me diga! Uma velha videira deita ramos, tem uns penduricalhos ácidos que pendem, passa o tempo, e o sol os amadurece; eles ficam doces como o mel. E então passam a se chamar uvas; são apanhados, esmagados, o suco é colocado em tonéis, ele fermenta sozinho, são abertos no dia de São Jorge — Beberrão, e virou vinho! E o que é ainda esse prodígio: você bebe este suco vermelho e eis que sua alma cresce, não cabe mais na velha carcaça e desafia Deus para a luta. O que é isso, patrão? Me diga!”.

Quando descobriu que queria ser enólogo?

Acredito que minha vocação estava adormecida. Diria que quando iniciei o projeto da Vallontano, no final da década de 1990, algo mexeu intensamente comigo. E a erupção foi inevitável. Como um músico que repentinamente se encontra com um instrumento e se apaixona por ele, ou alguém que por meio de um poema mergulha irreversivelmente no mundo das palavras. Foi exatamente uma epifania o que aconteceu comigo. Nasci em Caxias do Sul, entre duas vinícolas, a Luiz Antunes e a Vinícola Riograndense. Para ir à escola tinha de passar à pé pelas duas. Mais tarde, os cheiros das uvas, das fermentações, das madeiras das barricas, tudo aquilo repentinamente despertou minha memória. E então larguei tudo e segui rumo a este mundo único de uma única porta: a de entrada. É impossível sair do mundo do vinho.

Os vinhos da Vallontano procuram mostrar uma identidade regional. Quais as características de um bom vinho brasileiro? E do terroir do Vale dos Vinhedos? Por que algumas pessoas comparam o clima de lá ao do Vêneto, na Itália?

Quando fiz meu estágio com Hubert de Montille, na Borgonha, tive a certeza de que o respeito ao solo, ao clima e às pessoas eram os pilares para se elaborar vinhos autênticos. Tenho certeza de que a técnica é muito mais importante que a tecnologia para elaborarmos um bom vinho. No Brasil, temos diversas regiões, cada qual com suas características. Acredito que o respeito a elas seja fundamental para produzir bons vinhos brasileiros. A Vallontano está inserida num território, o Vale dos Vinhedos, a região vitícola mais estudada do país. Temos dados muito interessantes sobre o clima do Vale. Muitas pessoas o comparam com o do norte da Itália, mais especificamente com o Vêneto, pela umidade, pluviosidade e temperaturas semelhantes. Quem pensa que estas comparações são feitas apenas por leigos e por mera observação empírica pode ser surpreendido, como eu fui, pelo estudo de clima do Grupo Técnico da Masi, a mais respeitada vinícola italiana no Vêneto. As semelhanças são incríveis.

Quais as maiores dificuldades para produzir bons vinhos no Brasil?

Ao contrário do que todo mundo diz, o problema não é o clima. Infelizmente as maiores dificuldades se encontram no âmbito burocrático que impossibilitam investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Precisamos melhorar também nossas escolas de enologia. Infelizmente o setor vitivinícola não representa nada para o governo brasileiro, somos mais um entrave para negociações com o famigerado Mercosul do que propulsores de riqueza econômica. As questões tributárias também são limitantes para a produção de vinhos no Brasil. Na realidade precisamos de um governo que valorize o vinho como alimento e patrimônio cultural, e não o trate apenas como mais uma bebida alcoólica.

"Precisamos aperfeiçoar nossa técnica, nosso trato com a uva, nossa relação com a terra."

Como você avalia a qualidade e o potencial dos espumantes brasileiros?

Temos um tesouro nas mãos. Os espumantes brasileiros são de altíssima qualidade. É um segmento do setor que anda muito bem. Temos um futuro promissor pela frente. Podemos nos tornar reconhecidos mundialmente graças a este produto.

Poderia nos contar um pouco sobre o projeto Oriundi? Você acredita que este é o futuro para vinhos de altíssima qualidade no Brasil?

Antes de tudo o projeto Oriundi é um projeto cultural. Há oito anos trabalhamos junto com a vinícola italiana Masi com o intuito de transformar os valores vênetos em vinho. Esta linguagem metafórica é necessária para ilustrar o trabalho de dois mundos. Deste lado do Atlântico conhecemos o solo, o clima, as variedades das uvas e suas adaptações, ou seja, nosso terroir; do outro lado, temos a expertise de uma técnica milenar, o domínio do “appassimento” [também chamada de passificação, em português]. Este casamento entre a técnica e a cultura local nos possibilitou criar um vinho único no Brasil: o Oriundi. O Grupo Técnico da Masi é respeitado no mundo inteiro pela excelência e competência, e Sandro Boscaini é um homem obstinado, respeitado mundialmente pelo trabalho que fez em prol do Amarone e de Valpolicella. Seu convite para encararmos juntos este desafio foi um dos mais instigantes da minha vida. Quando ele me falou que o projeto Oriundi (Masi/Zanini) era o “resgate de um sonho” me emocionei profundamente. O resultado está aí: um dos melhores, senão o melhor vinho tinto produzido no Brasil. Não sei se este é o futuro para os vinhos brasileiros, mas é um caminho que mostrou ótimos resultados.

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Na sua opinião, qual uva tem mais potencial para produzir bons vinhos no Rio Grande do Sul?

Temos muitas uvas muito bem adaptadas. Sabemos da importância da Merlot e da Cabernet Sauvignon. Particularmente, gosto muito do resultado da Tannat, e mais recentemente a Teroldego, que considero uma cepa um tanto promissora.

A qualidade do vinho brasileiro mudou muito nos últimos anos. O que mudou na produção para que os vinhos ficassem melhores? Em quais pontos poderíamos evoluir mais?

Certamente o que mudou foi a mentalidade de nossos vinhateiros. A formação é sempre necessária. Atribuo o crescimento da qualidade de nossos vinhos a muitos profissionais da área enológica que acabaram tendo vivências no exterior, trocaram experiências, se aperfeiçoaram e se abriram para o mundo. Sabemos que tecnologia temos de sobra. Precisamos aperfeiçoar nossa técnica, nosso trato com a uva, nossa relação com a terra. Voltaram-se exclusivamente para o mercado, acreditando que as ferramentas de marketing seriam suficientes para conquistar o consumidor brasileiro. Com o vinho isso não acontece, temos que entender nossa terra e depois deixá-la falar e se expressar em nossos vinhos. É assim que funciona há milhares de anos.

Os vinhos brasileiros são capazes de envelhecer? Qual a sua sugestão de serviço para os tintos da Vallontano? E para o Oriundi?

Alguns vinhos brasileiros são capazes de envelhecer. O Oriundi, por exemplo, é um vinho que, segundo os técnicos da Masi, pode perfeitamente atingir os 20 anos de vida. Isto é maravilhoso. Os tintos mais leves e frescos, como os tintos da Vallontano, atingem seu apogeu entre cinco e dez anos. Minha sugestão de serviço para o Oriundi é servi-lo a uma temperatura entre 18 e 20 graus Celsius. Para os outros tintos, à temperatura de 15 a 18 graus Celsius.

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Seus vinhos sempre recebem vários elogios da imprensa especializada, mas você prefere não colocá-los em concursos para disputar medalhas. Qual é a razão?

Não participo de nenhum concurso, seja ele qual for. Não acredito no mundo das medalhas. Isto pode até seduzir o consumidor que está estreando no mundo do vinho, que precisa de algo que legitime sua escolha. Confio que quem realmente gosta de vinho não necessita deste tipo de aval. Para mim concursos não têm credibilidade alguma, são uma alegoria, um pequeno circo para distribuir condecorações, como um concurso de misses. Medalhas e premiações não são absolutamente atestado de qualidade.

O que tem um vinho artesanal que outro de grande produção não consegue igualar?

Jamais um produtor grande terá o carinho e o cuidado que um artesão tem em relação à produção de vinho. O uso das mãos em detrimento da máquina, o cuidado extremo desde a vinha até a comercialização. A obstinação. O vinho do artesão é único, é sua vida. O artesão trata o seu empreendimento como uma extensão de sua casa. Ele não sofre a pressão mercadológica, não é refém do marketing nem do planejamento industrial. Costumo citar uma frase do Rubem Alves, sobre isso: “Não cheguei onde planejei ir. Cheguei, sem querer, onde meu coração queria chegar sem que eu soubesse”.

Olhando algumas regiões produtoras do mundo temos a impressão que são grandes famílias. Como é a relação entre os produtores da sua região para promover o vinho brasileiro?

O mercado brasileiro está cada vez mais dinâmico e certamente mais exigente. Mas no Brasil não temos unidade para a venda nem para a promoção de nossos vinhos. Isto é histórico. Existem iniciativas isoladas de muitos produtores. Mas a cooperação ainda é esmagada pela competição. O vinho é um produto cultural, não uma commodity, e como tal deveria exaltar o nome da região de onde vem. Mas aqui ainda não existe um sentimento de vender o vinho da região como um todo. As indicações geográficas e denominações de origem são incipientes e desconhecidas do grande público. Temos anos e anos de trabalho ainda pela frente.

“Ao contrário do que todo mundo diz, a maior dificuldade para produzir vinhos no Brasil não é o clima. Infelizmente estas se encontram no âmbito burocrático, impossibilitando investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Precisamos melhorar também nossas escolas de enologia.”
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Representante da terceira geração no comando da prestigiosa casa italiana Coppo, Paolo fala sobre o papel da família na administração da vinícola, fundada em 1892 na comuna piemontesa de Canelli; da versatilidade da Barbera e do forte apelo regional de seus vinhos. A tradição vitivinícola de Coppo foi recentemente reconhecida como patrimônio cultural mundial da Unesco. Premiado inúmeras vezes com os “tre bicchieri” do guia Gambero Rosso por seu ícone Pomorosso, e sempre muito elogiado por todos seus outros vinhos, Paolo Coppo tem visitado o Brasil com frequência nas últimas décadas e nos concedeu uma interessante entrevista, que você confere a seguir.

A vinícola Coppo tem mais de 120 anos de história. Durante todos esses anos, quais foram os marcos mais importantes para que a família pudesse alcançar o prestígio que tem hoje?

Durante esses longos 120 anos, um dos fatores mais importantes e determinantes para o sucesso e a consolidação da Coppo foi a forte identificação com nosso território e com as castas aqui presentes, principalmente a Barbera, a Moscato e a Chardonnay. Outro fator fundamental para sustentar a vinícola no topo foi e continua sendo nossa decisão de mantê-la estritamente familiar. Particularmente para um negócio agrícola, de longuíssimo prazo, a família traz um componente muito importante, difícil de conseguir em outros tipos de organização: a paixão pela terra e pelo vinho. Posso dizer com segurança que a paixão pelos vinhos de nossa terra acompanha meu trabalho e dos meus irmãos todos os dias. E o reflexo desta paixão, acredito, pode ser percebido quando um de nossos vinhos é bebido.

Seu filho está começando a trabalhar na vinícola da família. Quando o senhor ingressou na Coppo?

Eu ingressei na vinícola junto com meus irmãos, há mais de 40 anos. Como disse, para uma vinícola como a nossa, que elabora vinhos artesanais e de grande apelo regional, é muito importante permanecer um negócio familiar. Uma pessoa que nasce e cresce em um determinado terroir tem a oportunidade de adquirir um conhecimento amplo da região. Este conhecimento é um grande trunfo para elaborar vinhos autênticos e de muita expressão.

"Quanto o vinho pode envelhecer depende muito do tipo de Barbera. Um Barbera mais simples pode durar uns oito ou dez anos, mas um grande Barbera pode passar facilmente dos 20 anos."

"Estou convencido há muito tempo de que o Barbera, por sua excelente acidez, casa muito bem com o tradicional “arroz, feijão e bife” tão consumido pelos brasileiros."

A Barbera é uma uva que apenas recentemente mostrou seu potencial para originar grandes vinhos. Antes, era considerada uma casta de segunda importância, mas hoje em dia sua qualidade e relevância são inquestionáveis. A Coppo foi uma das vinícolas responsáveis por mostrar ao mundo que a Barbera é um dos grandes tesouros dentre as uvas italianas. Quando e como a Barbera encontrou seu lugar entre as mais prestigiadas castas do mundo?

Embora houvessem sido produzidos alguns grandes vinhos com a uva Barbera nas décadas anteriores, a verdadeira revolução desta casta aconteceu nos anos de 1980. Temos orgulho de termos ajudado a escrever a história desta casta maravilhosa. Como vocês bem lembraram, a Coppo teve um papel fundamental nesta revolução, e foi uma das poucas vinícolas na época que apostaram em uma nova interpretação e conceito para a Barbera. Muitos fatores técnicos viabilizaram esta nova abordagem. Foi desta visão que, em 1984, nasceu o Pomorosso — que até hoje é considerado um dos ícones do vinho italiano.

Nós provamos recentemente um Barbera de Coppo com mais de 50 anos e nos impressionou como o vinho ainda estava fresco e vivo. Por outro lado, uma versão mais leve e elaborada sem a influência de madeira, como o L’Avvocata, pode ser a escolha perfeita para acompanhar uma ampla gama de pratos diferentes. O senhor poderia falar um pouco da versatilidade da casta Barbera?

A versatilidade é realmente uma das mais importantes características da Barbera. De uma mesma casta é possível obter, dependendo de como for vinificada, vinhos incrivelmente diversos. Deste modo, a Barbera pode dar origem um vinho como o L’Avvocata, que mostra notas frescas de fruta e uma ótima acidez, mas é também a matéria-prima para um vinho de caráter distinto como o Camp du Rouss ou mesmo um Pomorosso — que são vinhos de complexidade bem maior, mas que sempre mantêm o toque de frescor e evolução que é típico da Barbera.

O nome Coppo está tão intimamente relacionado com a Barbera que algumas pessoas se esquecem dos outros vinhos excelentes que a vinícola produz, incluindo alguns dos melhores Chardonnays da Itália, e o delicioso Moscato d’Asti Moncalvina. O que o senhor poderia nos dizer destes vinhos?

A Chardonnay é uma casta que sempre esteve presente em nossa região. Este fato pode ser comprovado por alguns documentos históricos do final do século XVII, que apontam a importância desta uva para a elaboração dos espumantes nesta zona produtora. Mesmo no caso da Chardonnay, nos primeiros anos da década de 1980, a Coppo, novamente de maneira inédita, lançou o desafio de interpretar a casta como base para um vinho grandioso e sofisticado. Assim nasceu o Monteriolo, que até hoje é uma das referências para a casta Chardonnay na Itália. Devido a nossa forte ligação com a terra e região, não poderíamos deixar de fora um dos vinhos mais típicos do nosso território: o Moscato. É um vinho que sempre esteve presente na história da Coppo e que esperamos possa ser redescoberto no futuro próximo. É um vinho incrivelmente versátil, leve, delicado, capaz de combinar maravilhosamente bem com pratos pouco convencionais.

O Gavi de Coppo é uma das melhores compras entre os vinhos desta denominação. Algumas pessoas acreditam que um vinho que se chama “Gavi di Gavi” é melhor que os que se chamam simplesmente “Gavi”. O que afinal é importante para um Gavi ser realmente bom?

O nome apelativo “Gavi di Gavi” não é garantia nenhuma de qualidade por si só. Seria o mesmo que dizer “Barolo de Barolo” ou “Bordeaux de Bordeaux”. Não é porque um Bordeaux é feito na comuna de Bordeaux que ele é melhor que um Bordeaux elaborado na comuna de Pauillac ou Margaux, por exemplo. Quanto ao nosso Gavi La Rocca, ele é produzido com uvas de um vinhedo próprio de cerca de oito hectares. Para que um Gavi tenha boa qualidade — assim como qualquer outro vinho — é preciso estar atento a todos os detalhes, cuidando desde o cultivo das vinhas até o engarrafamento do vinho.

O que torna o terroir de Canelli tão especial?

Esta é uma pergunta complexa! De maneira bastante sintética, o que torna o terroir de Canelli tão especial é a união quase mágica entre nosso microclima, que é particularmente adaptado para proporcionar uma perfeita evolução do ciclo vegetativo das vinhas, com os vários elementos encontrados em nosso solo, como o calcário repleto de microelementos que deixam os vinhos únicos. [Em junho, Coppo e suas adegas subterrâneas do século XIX entraram para a lista de patrimônios culturais mundiais da Unesco. O sítio tombado reúne mais de dez mil hectares nas zonas vitivinícolas de Langhe-Roero e Monferrato, 29 cidades, e outras cinco vinícolas da região].

O Pomorosso sozinho já recebeu mais classificações “tre bicchieri” do Gambero Rosso que a maioria das vinícolas de toda a Itália. O que torna este vinho tão especial?

Certamente o que torna o Pomorosso único é — mais uma vez — a combinação das qualidades do terreno de onde ele vem — perfeitamente adaptado para mostrar todas as qualidades da Barbera — e da perfeita cooperação entre homem, terra, vida e tradição. Temos um grande orgulho do grande reconhecimento do Pomorosso e de vivermos em uma região tão maravilhosa que é capaz de originar vinhos como ele.

Qual vinho de seu portfólio o senhor recomendaria a uma pessoa que quer começar a descobrir os vinhos do Piemonte?

Certamente um Barbera! O Camp du Rouss, por exemplo, anuncia as cativantes notas de frutas com uma estrutura mais redonda e convidativa. Mesmo com o grande frescor da Barbera, é um vinho bastante amigável e fácil de gostar, mas que mostra claramente sua origem.

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O Barolo de Coppo é um vinho histórico que foi relançado recentemente. Como o senhor o descreveria?

Nosso Barolo, afinado em grandes barricas de carvalho, é um ótimo meio termo entre a austeridade dos Barolos mais tradicionais e do novo conceito “moderno” que vem ganhando terreno na região. É um vinho elegante e refinado, mas que não demanda um longo envelhecimento em garrafa para começar a ser bebido. É um vinho de grande equilíbrio, com cativantes aromas de violeta e alcaçuz.

interview "A versatilidade é realmente uma das mais importantes características da uva Barbera. De uma mesma casta é possível obter, dependendo de como for vinificada, vinhos incrivelmente diversos."

"Uma pessoa que nasce e cresce em um determinado terroir tem a oportunidade de adquirir um conhecimento amplo da região. Este conhecimento é um grande trunfo para elaborar vinhos autênticos e de grande expressão."

Por quanto tempo um Barbera pode envelhecer? O que muda no vinho após alguns anos de adega?

Quanto o vinho pode envelhecer depende muito do tipo de Barbera. Um Barbera mais simples pode durar uns oito ou dez anos, mas um grande Barbera pode passar facilmente dos 20 anos. A diferença entre os dois estilos depende de como a uva é vinificada e do tipo de vinho que queremos produzir. A evolução que notamos no vinho após quatro ou cinco anos é principalmente percebida pelo aspecto olfativo. É possível perceber uma evolução e refinamento dos aromas presentes no vinho. É a partir dessa época que já podemos perceber também os aromas terciários, que deixam o vinho mais complexo e interessante.

Após todos esses anos visitando o mercado brasileiro, quais são as combinações dos seus vinhos com comida que o senhor mais gosta? O senhor diria que um Barbera acompanharia bem o clássico “arroz, feijão e bife”?

Após todos esses anos incrivelmente prazerosos que tenho estado no Brasil, arrisco afirmar que a extraordinária carne brasileira combina muito bem tanto com um Barbera quanto com um Barolo. Estou convencido há muito tempo de que o Barbera, por sua excelente acidez, casa muito bem com o tradicional “arroz, feijão e bife” tão consumido pelos brasileiros.

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Fundadas em 1864, as Bodegas Vega Sicilia estão comemorando 150 anos de existência como uma das maiores lendas do mundo do vinho. O proprietário Pablo Álvarez, presidente do grupo e responsável pelas revolucionárias mudanças que aconteceram na história recente desta que é a mais famosa e aclamada bodega espanhola, nos concedeu uma interessante entrevista ao lado do talentoso enólogo Xavier Ausás.

Desde que o pai de Pablo comprou a bodega em 1982, a filosofia de Vega Sicilia permanece a mesma — o foco exclusivo na qualidade, sem abrir qualquer concessão. Pablo Álvarez é um homem introspectivo, mas com posições firmes e um perfeccionismo quase obsessivo. Criador de sucessos como o Alión, Pintia, Tokaji Oremus e Macán, em Vega Sicilia ele conseguiu um feito que parecia impossível: melhorar ainda mais o prestígio e a qualidade de um dos maiores ícones do mundo do vinho, conquistando o palato da crítica especializada nos quatro cantos do mundo.

Pablo Álvarez


As Bodegas Vega Sicilia foram fundadas em 1864 — completando agora o importante marco de 150 anos na produção de vinhos lendários. Quais são os desafios de manter um nome mítico como o de Vega Sicilia ao longo de um século e meio?

O grande desafio para uma vinícola como Vega Sicilia é continuar produzindo os melhores vinhos ano após ano. Digo sempre que o melhor vinho ainda está por ser feito. Ainda que essa possa soar como uma frase pronta, acredito que ela realmente retrate a filosofia na qual minha família se inspirou ao longo de todo este tempo, e na qual continuará se inspirando em todas nossas bodegas.

Como a família Álvarez acabou adquirindo um ícone como Vega Sicilia? Quais eram os planos da vinícola naquela época?

Nosso pai adquiriu Vega Sicilia em 1982. Na verdade, nós fomos procurados pelos antigos proprietários para que encontrássemos fora da Espanha um comprador para a vinícola por meio de nossa empresa familiar. Na primeira reunião que tivemos para explicar-lhes quem era esse comprador, nosso pai revelou que o comprador que havíamos encontrado era ele mesmo! Isto aconteceu no início de 1981 e as negociações levaram um ano até que fechássemos o negócio.

Quase cem anos antes do sucesso dos supertoscanos, Vega Sicilia já combinava uvas nativas — Tinto Fino — com uvas internacionais, como a Cabernet Sauvignon e a Merlot. Poderia nos falar das importantes inovações de Vega Sicilia ao longo de sua história?

Eloy Lecanda, o fundador de Vega Sicilia, já tinha a ideia de elaborar o melhor vinho da Espanha, e trouxe da França em 1864 a maior parte das mais famosas castas do país. Ele selecionou a Cabernet Sauvignon, a Merlot, a Malbec e a Carménère de Bordeaux, a Pinot Noir e a Chardonnay da Borgonha, a Marsanne e a Roussanne do Rhône. Todas estas uvas davam origem a alguns dos mais consagrados vinhos do mundo. Passados muitos anos, e após diversas safras e testes de vinificação, restaram apenas a Cabernet Sauvignon e a Merlot, que são bastante importantes para o caráter do Vega Sicilia até hoje. Sem dúvida, Eloy Lecanda foi pioneiro e visionário. Esta experimentação inicial, com foco na mais absoluta qualidade, foi talvez a maior inovação de Vega Sicilia. Eloy ditou a filosofia que os quatro proprietários seguintes respeitaram acima de tudo, garantindo a perpetuidade do nome Vega Sicilia entre os maiores ícones da Espanha. Quanto a minha família, especificamente, acredito que nesses 32 anos conseguimos colocar o prestígio desta bodega em patamares que jamais poderíamos imaginar.

interview "Houve um grande homem em Vega Sicilia, Jesus Anadón, que trabalhou aqui por 40 anos. Aprendi muito com ele, e certa vez ele me disse: "Olha, Pablo, em Vega Sicilia ocorre algo que não sei o que é…"

Por que decidiram expandir os horizontes da vinícola e ir para regiões distantes, como Tokaj, na Hungria?

Em 1993, depois da queda da Cortina de Ferro, teve início a privatização de Tokaj, que havia sido a região produtora de um dos melhores vinhos do mundo e talvez daquele de maior prestígio durante os séculos XVII, XVIII e XIX. O Tokaji é um grande vinho, único no mundo por suas características particulares e sua acidez tão impressionante — que permite que este vinho doce seja quase eterno, como podemos perceber pelos grandes Eszencias que ali são produzidos e que certamente duram mais do que qualquer ser humano. Por isso fomos a Tokaj. O caminho foi certamente longo e nada fácil. Foi necessário renovar os vinhedos e construir novas instalações, um trabalho que continuamos até hoje, preservando a história da região. O que na verdade mais nos motivou foi a oportunidade de recuperar os grandes vinhos que deram tanta fama a esta região.

"Os grandes vinhos, de qualquer parte do mundo, devem ter alma. É a capacidade que alguns vinhos têm de emocionar, e que vai além da técnica. Um vinho pode ser tecnicamente perfeito, mas não ser marcante, não emocionar."

Você diria que uma boa matéria-prima é o suficiente para produzir um grande vinho? Qual é o segredo para colher uvas com uma qualidade impecável?

Mesmo sem falar nas características individuais do impacto de cada terroir em um determinado vinho, o caráter de um vinho depende fortemente do nível de maturação das uvas com as quais ele é feito. Se o produtor não souber discernir o momento do perfeito equilíbrio de maturação das uvas, é possível que o trabalho de um ano inteiro seja comprometido. A qualidade das uvas é extremamente importante.

"Quando provados sem comida, os vinhos mais doces e macios geralmente são os preferidos do grande público, mas os grandes vinhos são, sem dúvida, produzidos para serem servidos à mesa."

Verdadeiras personalidades do mundo do vinho começaram sua carreira trabalhando para Vega Sicilia. Por que sua vinícola é uma escola tão boa?

Vega Sicilia é uma grande escola porque ensinamos muito bem algo essencial: buscar a qualidade acima de tudo. Este tem sido nosso caminho e sempre será assim. Como tudo o que fazemos está direcionado para a qualidade absoluta, criamos verdadeiros perfeccionistas, e acredito que seja esta a razão de sermos uma grande escola.

O que o senhor planeja para o futuro de Vega Sicilia?

O futuro de Vega Sicilia não é nada além do que isso que já disse. E seguiremos criando ou adquirindo bodegas com a mesma filosofia de fazer grandes vinhos em cada lugar que estivermos. Os grandes vinhos são aqueles que têm algo mais do que serem tecnicamente perfeitos. São vinhos que têm alma!

Qual característica o senhor mais aprecia em seus vinhos?

A elegância e complexidade, e como estes vinhos, com o passar dos anos na garrafa, vão mudando, crescendo e evoluindo.

"O grande desafio para uma vinícola como Vega Sicilia é continuar produzindo os melhores vinhos ano após ano. Digo sempre que o melhor vinho ainda está por ser feito."

O senhor diria que o mundo finalmente descobriu os vinhos espanhóis?

Acredito que ainda há muito por descobrir. A Espanha foi e continua sendo um irmão menor no mundo do vinho. Produz grandes vinhos, bons e regulares também, e vinhos ruins, mas tudo isso precisa ser ensinado e mostrado ao mundo, e nós temos que nos mexer para que nos conheçam. Ninguém fará o trabalho que apenas nós espanhóis podemos fazer. O vinho espanhol é muito mais que vinhos baratos e a granel. Devemos mostrar o que realmente fazemos e somos capazes de fazer. Acho que até hoje ainda não temos promovido isso muito bem.

Qual a safra mais memorável de Vega Sicilia que já provou?

Não há uma mais memorável. São várias: as colheitas de 1942, 1953, 1962, 1964 e 1968, 1970 e 1974, 1982 e 1989, 1994, 1998 e 1999, 2004, 2009 e 2010 — todas originaram vinhos memoráveis. É difícil escolher uma. Como os vinhos evoluem com o tempo, acredito que para cada uma dessas grandes safras existem grandes momentos e grandes garrafas.

Como foi a experiência da joint venture com o Château Lafite Rothschild? Como o senhor descreveria Macán?

A experiência com Benjamin de Rothschild foi realmente magnífica. Nós dois temos a mesma ideia do que queremos, e ambos estamos muito contentes com o resultado que obtivemos até agora. A Rioja é uma grande região, talvez a mais importante da Espanha para vinhos finos, e tem demonstrado, sem sombra de dúvida, que é capaz de produzir vinhos de classe mundial. Há duas grandes zonas em Rioja: ao norte, com um clima atlântico; e ao sul, com um clima de influência mediterrânea. A julgar pelos vinhos que tenho provado, acredito que a região norte seja capaz de originar grandes vinhos — muito delicados, complexos e repletos de sutilezas. É assim que nós dois pensamos que deveria ser o Macán. Estamos no início e ainda temos muito o que aprender, mas confio totalmente naquilo que essa terra é capaz de dar.

Em sua opinião, que qualidade é comum aos grandes vinhos?

Os grandes vinhos, de qualquer parte do mundo, devem ter alma. É a capacidade que alguns vinhos têm de emocionar, e que vai além da técnica. Um vinho pode ser tecnicamente perfeito, mas não ser marcante, não emocionar.

O Vega Sicilia Unico é certamente um vinho muito especial. O que o torna único entre os maiores vinhos do mundo?

Houve um grande homem em Vega Sicilia, Jesus Anadón, que trabalhou aqui por 40 anos. Aprendi muito com ele, e certa vez ele me disse: “Olha, Pablo, em Vega Sicilia ocorre algo que não sei o que é, e provavelmente ninguém sabe, mas que resulta em vinhos grandiosos e diferentes. É a terra, são as uvas, o clima, tudo isso junto…”. É difícil explicar de uma maneira mais apropriada, principalmente a primeira frase: “existe algo em Vega Sicilia que não sei o que é…”

Xavier Ausás


"Conhecido na Espanha como “a sombra enológica de Pablo Álvarez” e “o mago do vinho”, Xavier Ausás é o enólogo por trás dos vinhos de Vega Sicilia. Diretor técnico da mais famosa bodega espanhola, ele fala aqui sobre os desafios de seu trabalho, da escolha em produzir vinhos apenas com vinhas de mais idade e das singularidades de cada terroir das cinco vinícolas do grupo."

Ser o diretor técnico de um dos maiores ícones do mundo do vinho deve ser um sonho para qualquer enólogo. Por outro lado, as expectativas com relação ao seu trabalho são as mais altas possíveis. É difícil lidar com a pressão da perfeição a cada ano?

Está claro que, quando trabalhamos em bodegas como Vega Sicilia, estamos sempre nos radares de todos e, ao mesmo tempo, sendo observados de perto com uma lupa. Por outro lado, se você trabalha de maneira franca e mostra um estilo e personalidade que não se deixam levar por modismos, o resultado compensa a tensão. O mais difícil, além de buscar a perfeição todos os anos, é não correr o risco de manchar a imagem do ícone que é Vega Sicilia, um mito que se mantém vivo e inabalado por mais de 150 anos.

Poderia nos falar um pouco sobre os diferentes estilos de vinhos produzidos nas cinco vinícolas do grupo Vega Sicilia?

Na Bodega Vega Sicilia propriamente dita, buscamos um equilíbrio entre a modernidade e a tradição — pela qual devemos sempre ter um grande respeito. Já em Alión, procuramos mostrar a modernidade de uma região que prima pela elegância. Em Pintia, na zona mais quente que é Toro, procuramos elaborar um vinho que mostre este caráter cheio e exuberante, típico desse lugar, mas sem pecar por excessos ou exageros. Na Hungria, em Oremus, procuramos destacar a doçura vibrante dos Tokaji e, finalmente, em Macán, nosso mais recente projeto na Rioja, queremos ressaltar a mineralidade e a nítida influência do terroir desta região.

Os amantes do vinho estão bebendo os grandes vinhos bem antes do que costumavam ser bebidos. Como você vê hoje a evolução da personalidade de um vinho ao longo de seu processo de envelhecimento?

Entendo que cada vinho tem o seu melhor momento. Se os enófilos, como você disse, tomam o vinho prematuramente, haverá casos em que se perderá algo — todo vinho tem seu momento. Os vinhos mais jovens, assim como muitas vezes acontece com as pessoas quando jovens, são diretos, exuberantes, explosivos. Com o tempo, o vinho, e as pessoas, perdem essas características e adquirem mais sabedoria e nuances — no caso do vinho, mais complexidade.

Qual a diferença entre envelhecer o vinho na barrica e na garrafa?

Estes dois tipos de envelhecimento são complementares. Durante a maturação na barrica, que chamamos de Crianza, acontece uma oxidação integrada à madeira, que ajuda a obter uma maior expressão do vinho. Na garrafa, o envelhecimento primeiro deixa o vinho mais redondo, produzindo um palato mais untuoso. Com o passar do tempo, o envelhecimento na garrafa também aporta complexidade ao vinho. São dois fenômenos opostos mas complementares.

Vocês não produzem vinhos de vinhas jovens. Por que? Qual a importância das vinhas velhas?

A razão técnica é que as vinhas com mais idade têm um sistema de raízes mais extenso e profundo, obtendo do solo e da rocha-mãe microelementos que participam de maneira decisiva contribuindo para a complexidade final do vinho. Além disso, a planta tem acesso à água de maneira constante e previsível. Isto permite que a vinha não se estresse, seja por falta ou por excesso d’água. Definitivamente, a vinha com mais idade tem uma possibilidade maior de auto-regulação e auto-equilíbrio — essa é a maior importância. Isto vale para as vinhas com mais idade, não necessariamente velhíssimas, mas que já não são jovens. As vinhas realmente velhas mostram uma dinâmica ainda mais distinta.

Você acha que é possível usar tecnologia para sustentar a tradição?

A tecnologia está em nossas mãos para obtermos uma boa expressão da tradição.

Qual o segredo de um grande vinho? Um grande terroir, o trabalho nos vinhedos ou precisão durante a produção?

Tudo tem sua importância. Um bom terroir será capaz de dar boas uvas inclusive em anos medíocres — ou seja, aporta regularidade e qualidade da matéria-prima. O trabalho nos vinhedos acaba sendo um reflexo de uma boa interpretação de um determinado terroir. Por último, poderíamos dizer que o cuidado que temos com as uvas durante a vinificação e o envelhecimento acabam por definir a personalidade que todo grande vinho tem.

Qual é a característica única de cada terroir em que você trabalha?

Na Ribera del Duero é a elegância (no caso particular de Vega Sicilia também diria que é a longevidade); em Toro, a exuberância; em Tokaj, a acidez que aporta um caráter vibrante aos vinhos; e, finalmente, em Rioja, a mineralidade.

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José Bento dos Santos é uma das maiores celebridades do vinho ibérico. E isso não é um acaso. Engenheiro químico industrial, com uma bem-sucedida carreira executiva, tornou-se produtor de vinhos no final do século xx — foi a realização bem arquitetada de um sonho. Em uma ascensão meteórica, os tintos e brancos de sua Quinta do Monte d’Oiro, lançados a partir da safra 1997, saltaram rapidamente para pódio da vitivinicultura lusa, figurando entre as grandes estrelas do país.

Vanguardista e caprichoso, José Bento dos Santos instalou-se na região de Lisboa (ex-Estremadura), de clima mediterrânico com influência atlântica, o que se traduz em noites frias e uma brisa frequente. Naquela época a região era um território coadjuvante no cenário vitivinícola português, com rótulos sobretudo de boa relação qualidade/preço. Impôs um novo ímpeto, acreditando no potencial de Lisboa para gerar vinhos capazes de rivalizar com os nomes mais sonantes e tradicionais de Portugal. Uma de suas ousadias foi replantar os vinhedos com castas francesas, como Syrah e Viognier, depois de estudar as condições de solo e clima do terroir. E passou a produzir organicamente e com minúsculos rendimentos. Seu Quinta do Monte d’Oiro Reserva (94% Syrah e 6% Viognier – um corte que remete aos grandes Côte Rotie) e o Madrigal (100% Viognier – que não deixa nada a dever aos excelentes Condrieu) são a prova mais contundente de que as nobres castas do norte do Rhône podem alcançar uma qualidade antes inimaginável nas suaves colinas de Lisboa. O Madrigal foi repetidas vezes selecionado entre os “Melhores do Ano” pela prestigiada Revista de Vinhos. Já sobre o Quinta do Monte d’Oiro Reserva, o jornalista Luís Ramos Lopes, diretor da publicação, comentou: “Um perfeito exemplo de Syrah... à moda do Velho Mundo”. Para Robert Parker, José Bento dos Santos “se tornou um dos mais premiados produtores de Syrah de Portugal – mesmo estando situado em uma região menos famosa”. O Lybra, um Syrah mais acessível assinado por Bento dos Santos, é “muito mais ligado a uma certa tradição estilística das Côtes-du-Rhône do que do modelo Novo Mundo”, nas palavras de João Paulo Martins, renomado crítico português. Dois outros singulares tintos da Quinta do Monte d’Oiro são o Aurius — um surpreendente corte de Touriga Nacional, Syrah e Petit Verdot, descrito como “muito, muito bom” por Luís Ramos Lopes — e o Têmpera (100% Tinta Roriz), “um tinto saboroso”, para a Wine Spectator. Considerado um dos “produtores boutique mais interessantes de Portugal” por Robert Parker, José Bento dos Santos nos concedeu uma interessante entrevista, que você confere a seguir.

O senhor adquiriu em 1986 a Quinta do Monte d’Oiro, uma propriedade histórica do século XVII. O que o levou a eleger o Alenquer, na região de Lisboa (ex-Estremadura), para produzir seus vinhos, em vez de optar por zonas mais tradicionais, como o Douro, Bairrada e Dão, ou ainda a região do Alentejo, que estava renascendo com força naquela época?

A Quinta do Monte d’Oiro é, antes de tudo, um investimento na terra onde a minha família teve suas raízes. Só depois foi desenvolvido o projeto vitivinícola da propriedade, que é um projeto pensado, racional, com objetivos definidos face ao estudo das potencialidades deste terroir privilegiado, conhecido desde o séc. XVII. Quisemos saber em detalhe até onde poderíamos chegar. O projeto baseou-se sempre na ideia de produzir grandes vinhos e não em uma produção industrial, sem alma. Por isso, nunca foi sequer considerada a hipótese de poder executar o projeto noutro local ou noutra região.

Depois de trilhar uma bem-sucedida carreira executiva, passando por importantes empresas portuguesas, o senhor decidiu apostar na produção de vinhos. Foi uma decisão movida pela paixão? Depois de 16 anos desde a primeira colheita da Quinta do Monte d’Oiro, como avalia o projeto?

A decisão foi tomada e também movida naturalmente pela minha conhecida paixão pelo vinho, mas a base do projeto é essencialmente racional. Investigamos primeiramente o potencial do nosso terroir por meio de estudos longos e profundos, nos quais se avaliaram todos os detalhes dos solos e do clima. Começamos apenas com 2,5 hectares, consolidamos o nosso conhecimento e capacidades, e só depois avançamos para uma produção de 15 hectares, chegando hoje a 20 hectares produtivos dos 42 hectares da propriedade. E ter os nossos vinhos reconhecidos pelos mais exigentes críticos internacionais já é suficiente para dizermos a nós mesmos que valeu a pena.

A marca registrada da Quinta do Monte d’Oiro são vinhos em estilo Velho Mundo, com apelo gastronômico. Foi esse conceito que o estimulou a plantar uvas francesas, como a Syrah, Petit Verdot e a Viognier, obtidas diretamente de suas regiões de origem, ao lado das inconfundíveis castas portuguesas Touriga Nacional e Tinta Roriz?

Como já referi, a nossa ideia passou sempre por conseguir explorar todo o potencial existente no terroir da Quinta do Monte d’Oiro, e não produzir mais uma marca de vinhos. Os estudos feitos — por especialistas da Universidade de Jerusalém, entre outros — apontaram para uma conjugação muito interessante de condições de solo e clima altamente favoráveis às uvas das Côtes du Rhône, na França. Até o vento Mistral, que fustiga as vinhas do vale do Rhône (e que numa associação premonitória é o nome da nossa importadora no Brasil!), tem uma equivalência com o vale onde se situa a Quinta do Monte d’Oiro (cuja freguesia onde se localiza tem o explícito nome de Ventosa). Daí termos escolhido a Syrah e a Viognier, que provaram ser capazes de produzir, no nosso terroir, vinhos de gabarito elevadíssimo. A Petit Verdot ocupa uma pequena parcela, que amadurece mais precocemente e nos permite, tal como em Bordeaux, fazer pequeníssimos ajustes à estrutura dos nossos vinhos (funciona como uma uva de “tempero”). Mas também temos uvas portuguesas de eleição, como a Touriga Nacional, Tinta Roriz e Arinto (essa última uma uva branca), que já mostraram que a sua criteriosa escolha foi em boa hora decidida. Com esses parâmetros favoráveis, é possível produzir na Quinta do Monte d’Oiro uvas de qualidade absolutamente excepcional, para posteriormente vinificar com grande rigor e cuidado. É este o “segredo” para se produzir vinhos gastronômicos — isto é, vinhos que além de acompanharem bem uma refeição, ainda lhe acrescentam um valor gustativo.

"Até o vento Mistral, que fustiga as vinhas do vale do Rhône tem uma equivalência com o vale onde se situa a Quinta do Monte d’Oiro, cuja freguesia tem o explícito nome de Ventosa."

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A uva Syrah se adaptou tão bem ao terroir de Lisboa que seus vinhos, especialmente o Quinta do Monte d’Oiro Reserva (um corte Syrah e Viognier) e o Syrah 24, chegam a lembrar os melhores exemplares do norte do Rhône. O que as região de Lisboa e Rhône têm em comum? E o que as diferencia na sua opinião?

Não será possível fazer uma comparação entre a região de Lisboa e as Côtes du Rhône, duas realidades distintas. Mas, dentro das Côtes du Rhône, a Syrah tem uma expressão favorável, tal como acontece nos vinhedos desta casta na Quinta do Monte d’Oiro. Só que é preciso ter em conta que apenas 2,5% de todos os vinhos produzidos nas Côtes du Rhône têm características excepcionais (tipo Grand Cru, classificação essa que em Portugal não existe). Também em Lisboa não será fácil reunir condições para produzir um grande Syrah e muito menos um Viognier. Só em locais privilegiados — os tais que numa região não vão além de 2% a 3% do total da sua área — na região de Lisboa (como em Hermitage ou Côte Rôtie, nas Côtes du Rhône) é possível almejar produzir vinhos com essa qualidade mítica.

A partir de 2006, as vinhas da Quinta do Monte d’Oiro foram convertidas à agricultura orgânica. O que o fez tomar essa atitude?

Para produzir um grande vinho é vital recorrer a esse tipo de agricultura. Se tal não for feito, os terrenos “cansam”, não se consegue a oxigenação necessária da terra nem a biodiversidade tão essencial à produção de ótimas uvas. Por isso, quem quer elaborar vinhos de grande qualidade tem de recorrer à agricultura orgânica – ou à biodinâmica. Não é que esse recurso seja panaceia universal. Um terreno menos adequado para produzir um grande vinho melhorará com a adoção da agricultura orgânica, mas não conseguirá chegar àquele desiderato. Por outro lado, um vinhedo com todo o potencial de um grande “terroir”, se não for cuidadosamente conduzido, não atingirá a qualidade desejável. A nossa experiência com a adoção da agricultura orgânica é extremamente positiva, refletindo-se cada vez mais na capacidade de ir aos limites da qualidade nos vinhos.

"Quem quer elaborar vinhos de grande qualidade tem de recorrer à agricultura orgânica – ou à biodinâmica -, se tal não for feito, os terrenos “cansam”, não se consegue a oxigenação necessária da terra nem a biodiversidade tão essencial à produção de ótimas uvas."

Uma das grandes parcerias no mundo do vinho foi a do senhor com o produtor francês Michel Chapoutier, uma das estrelas do norte do Rhône. O que o senhor aprendeu com Chapoutier e vice-versa?

Michel Chapoutier é um entusiasta, um apaixonado, mas sobretudo um grande e profundo conhecedor do vinho e de sua produção. Produz alguns dos vinhos mais memoráveis que já bebi, e esta minha admiração pelo seu trabalho me levou a visitá-lo na altura da decisão de enveredar pela produção de um grande vinho. Não só me acarinhou, como me entusiasmou, motivou e me deu sábios conselhos, que pus em prática com o maior sucesso. Tentamos fazer ambos um vinhedo de Touriga Nacional na França, que a burocracia impediu. Mesmo assim, fiz uma proposta ao nosso Embaixador em Paris, que permitiu que o governo português lhe concedesse a condecoração de Comendador da Ordem de Mérito Agrícola. Curiosamente, dois anos depois, o ministro francês Michel Barnier conferia-me também o grau de Comendador da Ordem de Mérito Agrícola.

No Guia Vinhos de Portugal 2013, do respeitado crítico João Paulo Martins, o Quinta do Monte d’Oiro Madrigal 2011 foi selecionado entre os “melhores brancos do ano”. Este é, de fato, um dos grandes brancos lusos, sempre com muitos elogios da imprensa especializada. Não é comum um branco 100% Viognier português. Produzi-lo foi o seu maior desafio no mundo dos vinhos?

Não sei se foi o maior desafio, mas que foi um desafio muito grande, foi. A Viognier nos países mais a sul tem maturações muito rápidas e precoces. Na França, em Condrieu, diz-se que a Viognier tem de ter 14 graus alcoólicos para se exprimir; mas se tiver mais de 14 graus já é uma “marmelada” de frutas. Como se sabe, não é fácil encontrar um Viognier do sul (mesmo no sul da própria França) com a finesse e o conteúdo dos Viognier de Condrieu. Além de uma agricultura cuidadosíssima, a determinação da maturação destas uvas é de um rigor extraordinário, fazendo-se uma vindima seletiva, cacho a cacho, com diferentes vinificações diárias, que são depois selecionadas para fermentação em inox e barricas de 400 litros (carvalho francês novo de tanoaria da Borgonha). Na assemblage final, antes do engarrafamento, temos vários tipos de “Viogniers”, o que permite a seleção ideal. É bom lembrar que, já por três vezes, o nosso Madrigal (100% Viognier) ganhou um concurso na França que elege os melhores vinhos estrangeiros de castas francesas.

O senhor é reconhecido como um dos maiores gastrônomos do seu país – é vice presidente da Academia Internacional de Gastronomia, membro de outras respeitadas instituições do gênero, autor de livros sobre o assunto e da coluna A Palavra do Gourmet publicada mensalmente na respeitada Revista de Vinhos. Por isso, é uma tentação lhe perguntar qual foi a mais fantástica e emocionante harmonização que já experimentou? E quais pratos indicaria para combinar com seus vinhos? Arriscaria um prato da cozinha brasileira?

O aniversário da Academia Internacional de Gastronomia (onde estava presente uma grande representação da ABG – Academia Brasileira de Gastronomia) foi celebrado com um jantar no Plaza Athénée (do Chef Alain Ducasse), em Paris. Para esse jantar, tive a honra de propor e discutir o menu e os vinhos com o chef Santaigne e o sommelier Laurent Roucayrol. Foi servido um lavagante cozinhado no forno com um vinho tinto Châteauneauf du Pape. A ligação é ao mesmo tempo espantosa e sublime, sensual e carnuda (“o lavagante é carne”, no dizer de Laurent Roucayrol). Sobre a cozinha brasileira, ela é muito rica e diversificada, e tive oportunidade de apreciá-la na visita organizada no ano passado pela ABG. Pensando nos meus próprios vinhos, o Lybra branco fará as delícias do palato ao acompanhar os vossos maravilhosos pastéis; o Lybra tinto, ideal para servir com aquela divinal carne de porco do Mocotó. Já com a tradicional feijoada (comi uma excepcional em Petrópolis), o Têmpera — raçudo, encorpado e cheio de nuances robustas mas delicadas — seria, com certeza, a melhor companhia. Casava, sem olhar para trás, a força e o sabor da carne brasileira (picanha, maminha, cupim…) com o nosso Aurius, elegante e desafiador, para despertar os aromas da reação de Maillard, o gosto profundo e telúrico a criar uma ligação poderosa e bem carnívora. Deixaria o Quinta do Monte d’Oiro Reserva (ou o Syrah 24) para os pratos de maior complexidade de sabores, como um feijão tropeiro ou uma vaca atolada mineira, numa fusão enogastronômica perfeita. Por fim, sugiro o Madrigal com um vatapá ou moqueca de marisco, onde seguramente se poderá constatar o teor mágico de uma cumplicidade inesquecível.

"Nossa experiência com a adoção da agricultura orgânica é extremamente positiva, mas este recurso não é uma panaceia universal. Um terreno menos adequado para produzir grandes vinhos melhorará com a adoção da agricultura orgânica, mas nunca conseguirá chegar a ser grandioso. Por outro lado, um vinhedo com todo o potencial de um grande “terroir”, se não for cuidadosamente conduzido, não atingirá toda sua qualidade."

Em um artigo publicado na Revista de Vinhos o senhor sugere que Portugal deveria seguir o exemplo da Espanha e organizar uma visita memorável de Robert Parker ao país — no qual, aliás, ele passou sua lua-de-mel. O senhor acha que os vinhos portugueses são subestimados pela imprensa internacional? São, como se diz, “o segredo mais bem guardado do mundo do vinho”?

Portugal tem, na minha opinião, muito melhores vinhos do que capacidade de marketing. No capítulo dos vinhos, mesmo tendo à partida vantagens comparativas com outros países (Chile, Austrália, Argentina, África do Sul, USA, newcomers), pois já possui o vinho do Porto e o vinho da Madeira, inimitáveis e reconhecidos como dos melhores do mundo — não foi ainda possível afirmar-se internacionalmente como seria merecido e justo. Infelizmente, o dinheiro para a promoção dos nossos vinhos não abunda, mas se unirmos esforços em torno de um projeto comum, tenho a certeza que o “segredo” dos nossos (bons) vinhos será desvendado!

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Por que o senhor indica o Lybra para quem quer começar a entender seus vinhos?

O Lybra, sendo um vinho de grande dignidade, é um vinho do cotidiano, mais fácil de apreciar para alguém que se inicia no mundo do vinho. Tal como na música, não aconselharia ninguém a iniciar-se por Mahler ou Shostakovich (no caso da música clássica) ou Miles Davis e Coltrane (no jazz), também nos vinhos há que começar por alguns menos complexos, para depois poder apreciar em toda a extensão a enorme complexidade de um Quinta do Monte d’Oiro Reserva, um Aurius ou um Syrah 24.

"Deixaria o Quinta do Monte d’Oiro Reserva (ou o Syrah 24) para os pratos de maior complexidade de sabores, como um feijão tropeiro ou uma vaca atolada mineira, numa fusão enogastronômica perfeita."
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Ao provar os intrigantes tintos e brancos de Gaía é possível intuir porque Leon Karatsalos aponta a gréia como “o Novo Mundo do Velho Mundo”. Elaborados com uvas completamente diferentes, seus vinhos oferecem uma gama de aromas e sabores bastante distinta do que boa parte dos enófilos está acostumada a encontrar nos exemplares do Velho Mundo — mas tampouco são vinhos exagerados e concentrados como alguns produzidos no Novo Mundo, muito pelo contrário. Eles trazem um toque de secura, acidez e terroir que também são encontrados nos melhores vinhos europeus. Fruto da parceria de Leon Karatsalos com o talentoso enólogo Yiannis Paraskevopoulos, Gaía é a mais celebrada vinícola grega e uma das pioneiras da revolução tecnológica que tomou conta do país nas últimas décadas. Com sua enorme diversidade de castas autóctones e terroirs únicos, passando por vinhedos de mais de 400 anos, os vinhos da Grécia recompensam fartamente aqueles que se dispõem a descobri-los. Leon Karatsalos nos concedeu uma interessante entrevista, que você confere a seguir.

A Grécia foi um dos países mais importantes na história do vinho, mas na era moderna até muito recentemente não vinha produzindo tintos e brancos de classe mundial. O que mudou nos últimos anos?

O vinho na Grécia tem certamente uma longa história e é parte integrante da cultura grega desde a Antiguidade até os dias de hoje. Por outro lado, o potencial do país para elaborar tintos e brancos de alta qualidade só foi revelado no começo dos anos 1980, quando uma nova geração de enólogos e viticultores talentosos e especializados investiram nos vinhedos e em equipamentos de vinificação de última geração, dando origem a pequenas e médias vinícolas de alta qualidade. Mesmo sendo um país que produz um volume relativamente pequeno, há uma quantidade considerável de rótulos reconhecidos e respeitados pela imprensa internacional especializada. Graças à verdadeira renascença dos vinhos gregos nos últimos anos, é possível apontar a Grécia como um produtor do Novo Mundo dentro do Velho Mundo.

Por que você decidiu ingressar no mundo do vinho?

Por acreditar no imenso potencial das regiões vitivinícolas da Grécia e em suas fascinantes castas, eu e meu colega na Universidade de Agricultura de Thessalonki, Yannis Paraskevopoulos — também PhD em enologia pela Universidade de Bordeaux — decidimos criar a Gaía com o objetivo de produzir vinhos de classe mundial, utilizando uvas autóctones. Para quem não sabe, a palavra Gaía significa “terra” em grego antigo. Nossa primeira safra foi em 1994, com a produção do Thalassitis, da OPAP (Denominação de Origem Protegida) Santorini, um branco elaborado com a uva Assyrtiko. Hoje, a Gaía conta com duas moderníssimas vinícolas nas duas mais importantes OPAPs do país — Nemea, na península do Peloponeso, e Santorini, no mar Egeu. Nós exportamos 50% da produção para a Europa, América do Norte, Austrália e também, é claro, para o Brasil. Após 15 anos, nos tornamos a grande referência de qualidade para os vinhos gregos e temos orgulho de ter contribuído para o renascimento dos tintos e brancos do país. Como sempre procuramos alcançar a qualidade máxima em todos os níveis, é natural que ainda haja muito trabalho a ser feito.

Como vocês identificaram o potencial da Grécia para a produção de vinhos de qualidade nos tempos modernos, já que foram um dos pioneiros a fazer isso? Como descobriram os melhores terroirs e castas?

Nós realmente acreditávamos no potencial de nossas castas autóctones! Se você pensar, temos mais de 360 uvas indígenas na Grécia, mas apenas 50 ou 60 têm sido cultivadas sistematicamente nas últimas décadas. Além disso, a imensa diversidade de solos, altitudes, climas e topografia cria uma infinidade de condições distintas e únicas. Temos ainda muitas uvas e terroirs a serem descobertos e isso foi — e continua sendo — um desafio para nós. Nosso objetivo principal sempre foi mostrar ao consumidor internacional o potencial das nossas castas locais. Estudando várias dessas variedades de uvas e alguns dos terroirs mais emblemáticos, concluímos que a Grécia tinha potencial para originar grandes vinhos, e assim nos sentimos prontos para abarcar o desafio.

Como você disse, podemos achar na Grécia uma infinidade de terroirs diferentes. Poderia nos contar quais são os mais importantes, e o que os torna tão especiais?

Certamente, o terroir mais importante da Grécia é o de Santorini. Essa ilha, além de ser um dos destinos turísticos mais amados por pessoas de todo o mundo, possui condições únicas para o cultivo das uvas, fato que é reconhecido internacionalmente. Os solos são porosos, de origem vulcânica e bastante pobres em matéria orgânica. A exposição solar é elevada, com pouca chuva, mas a ilha conta com uma constante brisa marítma e ventos fortes durante o verão. A condução das videiras é feita pelo tradicional sistema “kouloura”. Em forma de cestas. São vinhedos de mais de 3.000 anos de idade, com vinhas plantadas em pé franco e nunca tocadas pela filoxera. Algumas têm mais de 400 anos de idade — são as mais antigas de todo o mundo! Todos esses fatores combinados com uma das castas de uva branca mais nobres de todo mediterrâneo, a Assyrtiko, dão origem a vinhos raros, preciosos e singulares. Definitivamente, o Thalassitis não é um vinho para principiantes. A segunda denominação mais importante é a de Nemea, a maior região produtora da Grécia. Ela conta com diversos tipos de solo, com altitudes que variam de 250m a 850m, e é dominada pela casta tinta Agiorgitiko. Essa grande diversidade de microclimas, combinada com a personalidade multifacetada da Agiorgitiko, é um enorme desafio para o enólogo. Os vinhos podem ter estilos bastante diversos: desde leves e cheios de fruta, com uma textura sedosa, até encorpados e longevos, incluindo vinhos rosados e doces também. As outras regiões importantes são Naoussa, com a casta Xynomavro; Mantinea, com a uva Moschofilero; a casta Roditis na região de Patras e a Malagousia em diversas zonas do país.

O primeiro sucesso da vinícola foi o Thalassitis. Por que vocês escolheram a casta Assyrtiko? Como você descreveria essa uva para alguém que nunca teve a chance de provar um vinho elaborado com ela?

Thalassitis, que significa “que vem do mar”, foi o nosso primeiro vinho e até hoje é um dos nossos rótulos mais reputados. Desde a primeira safra, esse branco teve um imenso sucesso na Grécia. A produção de 9.000 garrafas na safra inicial foi aumentando, e hoje produzimos 10.000 caixas. Logo após seu lançamento, esse vinho recebeu diversos prêmios da imprensa internacional, conquistando um público cativo em diversos países e se tornando sinônimo de vinho de alta qualidade produzido na Grécia — um embaixador dos vinhos de Santorini. Nós fomos uma das primeiras vinícolas do país que acreditaram no grande potencial da Assirtiko e da ilha de Santorini. Ela é a mais nobre variedade para brancos da Grécia, dando origem a um vinho de personalidade única e caráter muito potente: encorpado, com boa estrutura, uma excelente acidez combinada com uma grande mineralidade e repleto de nuances aromáticas. São os mais longevos brancos da Grécia, e devem ser tomados acompanhados por comida. Um robalo ou mesmo um cordeiro assado com molho de limão são ótimas escolhas para uma garrafa de Thalassitis. Uma característica bastante interessante desse vinho é que, embora seja um branco, ele mostra o caráter de um tinto.

Você é um grande entusiasta das castas autóctones da Grécia. O que elas podem oferecer para alguém que aprecia as variedades internacionais?

Nos últimos anos, as pessoas têm notado uma globalização cada vez maior, inclusive no mundo do vinho. Tintos e brancos modernos, elaborados com as quatro ou cinco uvas mais cosmopolitas, têm estilo semelhante e dominam as prateleiras das lojas e as cartas de restaurantes nos quatro cantos do mundo. Desta forma, é natural que o amante de vinhos procure algo novo, que fuja do lugar comum, para quebrar a monotonia. A Grécia tem uma impressionante coleção de uvas e terroirs que, quando combinados, são a resposta perfeita para o consumidor que se cansou dos vinhos globalizados, oferecendo sabores e sensações diferentes. Na Grécia, nós procuramos cultivar primeiro a origem e depois a marca. Por fim, mas bastante importante, os rótulos gregos possuem uma excelente relação qualidade/preço.

Como você definiria a assinatura dos vinhos Gaía?

Nós sempre procuramos que nossos vinhos tenham qualidade, originalidade, elegância, confiabilidade. Tentamos elaborar tintos e brancos que tenham um caráter puro e que reflitam a alma da terra em que foram produzidos. Respeitamos as pessoas envolvidas na produção dos vinhos e acreditamos na forte relação entre os elementos da natureza e os seres humanos. Essa é uma das razões pelas quais nossos símbolos são a terra, o mar, o ar e o sol.

O Ritinitis é bastante diferente da maioria dos vinhos Retsina. Qual era o objetivo da vinícola ao criar esse vinho e que tipo de comida pode acompanhá-lo?

Desde a Antiguidade, o Retsina é o mais tradicional vinho da Grécia. Ele mostra um estilo único graças à adição de uma certa quantidade de resina do pinho “Pinus Halepensis” durante a fermentação. A legislação europeia reconhece o Retsina como de “Denominação Tradicional”, e ele só pode ser produzido na Grécia. No passado, o nome era associado a vinhos oxidados e cheios de resina que os turistas acabavam provando quando visitavam o país. Nós decidimos criar uma nova geração de brancos Retsina com as mais modernas técnicas de vinificação, uma quantidade muito controlada de resina e uvas Roditis selecionadas nas encostas de Nemea. Assim nasceu o Ritinitis Nobilis, que revela um ótimo equilíbrio entre fruta e pinho, sendo uma boa companhia para os tradicionais “mezzedes” — petiscos gregos que, a exemplo das tapas espanholas, também são feitos com ingredientes mediterrâneos e são deliciosos aperitivos.

O Gaía Estate é um dos maiores ícones do vinho grego. O que podemos esperar desse rótulo com alguns anos em garrafa? A sedosa Agiorgitiko é capaz de envelhecer?

O Gaía Estate foi o primeiro vinho grego de guarda elaborado com a uva Agiorgitiko. Até então, todos achavam que essa variedade só era capaz de originar tintos leves e sedosos, com taninos bem macios. Ao adotar uma viticultura mais cuidada em nosso vinhedo de 7 hectares em Koutsi, na região de Nemea, obtemos rendimentos muito menores que os habituais e uma completa maturação da uva, que assim é capaz de revelar toda a sua potência. Com modernas técnicas de extração e o uso de pequenas barricas francesas — além de engarrafar os vinhos direto das barricas sem filtração — conseguimos produzir um tinto que, sem dúvida, deve melhorar em garrafa por pelo menos 15 anos. Quem quiser perceber todas as nuances e conhecer a grande complexidade desse vinho deve ter muita paciência!

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Man of the Year 2012 no mundo do vinho segundo a revista inglesa Decanter

PAUL SYMINGTON ENTROU PARA A EMPRESA FAMILIAR EM 1979, AOS 25 ANOS DE IDADE — os negócios precisavam de reforço. Naquela época Portugal ainda se refazia da rebelião militar que havia derrubado o sistema autoritário fundado por Salazar (a chamada Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974) e que acabou gerando uma onda de nacionalizações. Conta-se que o setor do Vinho do Porto teria escapado por pouco. Mas os Symington já eram um grupo de enorme reputação, com uma história que remonta a 1652 — quando Walter Maynard (um ancestral longínquo) exportou 39 pipas de Vinho do Porto, a segunda negociação realizada por um cidadão britânico da qual se tem registro. Ao longo de mais de três séculos, os vários ramos familiares que vieram a desembocar no DNA português dos Symington estiveram ligados ao comércio de Porto, e nessa árvore genealógica os mais emblemáticos sobrenomes do universo do vinho luso se cruzam.

A família é a maior proprietária de vinhedos finos do Douro, contando com diversas propriedades que fornecem uvas de altíssima qualidade para Vinhos do Porto e também ícones tintos, como Quinta do Vesúvio, Chryseia e Altano. Para Robert Parker, a Graham’s é a “mais consistente marca de Vinhos do Porto do pós-guerra”. A revista Wine Spectator, no suplemento “The Greatest Wines of Our Time”, destacou seis rótulos da família numa lista dos melhores dos últimos 11 anos (1995–2006). Entre eles: Porto Graham’s Vintage 2000 (98 pontos), Chryseia 2001 (94 pontos) e Altano Reserva Tinto 2003 (91 pontos).

Paul Symington, aos 58 anos é o atual presidente desse “império”, e comanda o grupo ao lado do irmão Dominic e dos primos Johnny, Rupert e Charles. Embora cultivem a maior parte das uvas utilizadas na elaboração de seus Vinhos do Porto, tintos e brancos, também adquirem a produção de pequenos viticultores do Douro e são conhecidos como bons compradores.

Em tempos de recessão econômica, em vez de “esmagarem” os custos, fizeram justamente o contrário: “Resolvemos aumentar, no ano passado, o valor que pagamos aos nossos fornecedores”, disse Paul Symington à revista Decanter. “Algumas pessoas nos chamaram de malucos”. Por trás disso há uma explicação: a solidariedade da empresa aos agricultores, parceiros de longa data, que estão passando por sérias dificuldades — além de ser um sinal claro do quanto essa família de origem britânica está enraizada na região. A trajetória dos Symington é, sem dúvida, um capítulo admirável da história do Douro e que mereceu recentemente um dos reconhecimentos mais importantes de todo o mundo do vinho: Paul Symington foi eleito “Man of The Year 2012” pela respeitada revista Decanter, um prêmio que ele fez questão de dedicar a toda a sua linhagem. A seguir, você acompanha a entrevista que Paul Symington concedeu à Mistral.

"Neste momento, as variedades portuguesas é que estão chamando a atenção de produtores em outros países. Muitos enólogos estrangeiros já cultivam, por exemplo, a nossa Touriga Nacional."

Você é o primeiro português a ser indicado como “Man of the Year” pela revista inglesa Decanter. Por que, na sua opinião, essa publicação demorou tanto tempo para prestigiar um produtor de Portugal? Algum projeto em especial dos Symington Family Estates foi determinante para essa escolha?

Portugal nunca antes alcançou tanto destaque no panorama internacional como hoje e, até certo ponto, penso que a maior notoriedade que a região do Douro tem obtido contribuiu bastante para esse reconhecimento — embora os Vinhos do Porto tenham sido, desde sempre, muito prestigiados. Nossa família está presente na região desde o final do século XIX e temos liderado a causa da melhoria do setor ao ajudar, por exemplo, a resolver as dificuldades enfrentadas pelos lavradores. O empenho da família em aumentar a área de vinha para os atuais 947 hectares (o que equivale a quase 1.000 campos de futebol) também tem sido um feito inédito, e com alguma repercussão externa.

O Symington Family Estates é hoje o maior proprietário de vinhedos finos no Douro. Como vocês conseguem manter uma qualidade tão elevada dos vinhos, que refletem um cuidado praticamente artesanal?

Na realidade, os 947 hectares estão divididos entre 27 propriedades — cada uma tem a sua particularidade, o seu terroir e, portanto, um determinado estilo. Gerir tudo isso é, com certeza, um grande desafio, mas sem essa quantidade — e diversidade — de uvas, os nossos vinhos não seriam tão complexos e interessantes. Vale ressaltar que para vinificar toda a produção contamos com 9 adegas no Douro, e cada uma possui sua equipa particular. Dessa forma conseguimos um controle minucioso na vinificação. Durante a vindima, nossa operação no Douro é extremamente complexa. O vinho de cada uma das nossas marcas é feito numa adega própria para que consigamos manter o estilo e identidade de cada propriedade. Ter todos estes terroirs e uvas diferentes à disposição é uma grande vantagem — acrescenta muito à complexidade, à paleta de matéria prima de alta qualidade que temos para trabalhar.

A sua família entrou para o negócio de Vinhos do Porto em 1882, em um momento em que os vinhedos da Europa estavam devastados pela praga da filoxera. O que levou os Symington a investirem no Douro?

No inicio, o meu bisavô era apenas um negociante de Vinhos do Porto. As gerações seguintes resolveram investir na compra de vinhas mas, na realidade, o grande salto começou com esta última geração, liderada por mim e pelos meus primos. Antigamente a família (como todas as outras empresas de Vinho do Porto) comprava vinhos e, depois de envelhecê-los e fazer os cortes, vendia-os. Agora, a empresa é também produtora de todas as uvas que compõem todos os nossos vinhos de qualidade. Já não somos simplesmente uma empresa de Vinho do Porto, somos um grupo produtor (e também de vinhos do Douro DOC, tintos e brancos). Desse modo, conseguimos assegurar uma maior qualidade dos vinhos que comercializamos, já que controlamos todos o processo desde a plantação da vinha até a venda final do vinho em garrafa.

Nas últimas décadas, muitos vinhedos têm sido replantados no Douro, e mesmo em Portugal em geral, e vários produtores acabaram se rendendo às castas internacionais. Vocês têm mantido o foco nas uvas autóctones e, aliás, contribuíram com um estudo para identificar as castas portuguesas de maior potencial para a região, apesar de muitos consumidores, em mercados estrangeiros, não estarem familiarizados com uvas como Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinto Cão... Nunca pensaram em plantar, por exemplo, Cabernet Sauvignon ou Pinot Noir?

Não, se temos as nossas próprias castas, que são excepcionais e únicas, já adaptadas à região… Para nós não faz sentido plantar variedades internacionais. E, neste momento, as variedades portuguesas é que estão chamando a atenção de produtores em outros países. Muitos enólogos estrangeiros já cultivam, por exemplo, a nossa Touriga Nacional.

As quintas da família Symington têm uma enorme tradição em Vinhos do Porto. Nos últimos anos, o grupo vem investindo principalmente em tintos. O que fez com que vocês se convencessem de que a região tinha potencial para vinhos de mesa?

Já sabíamos há algum tempo que a região do Douro tinha grande potencial para vinhos tintos, mas o mercado e as condições ainda não eram favoráveis. No Douro temos um sistema onde a quantidade produzida de Vinho do Porto é controlada. Além da grande qualidade dos vinhos, passou a existir também uma motivação econômica: para tentar rentabilizar as quintas e o excedente de produção, foi necessário encontrar outro escoamento para as uvas. Por isto, no inicio da década de 90, começou a haver condições entre vários produtores para o surgimento de vinhos finos — tintos e brancos das mesmas castas que as utilizadas na elaboração dos Vinhos do Porto. Esses vinhos foram vistos como muitíssimo interessantes.

Vocês recentemente lançaram o Altano Branco, que tem sido bastante elogiado pela intensidade aromática e frescor. Como conseguiram elaborar um branco tão vibrante numa região seca e quente? É uma quebra de paradigmas: o Douro tem mesmo vocação para brancos?

O Douro, além de ser uma região de clima quente é também uma região de montanha, com vinhas instaladas de 100 até 500 metros de altitude. No caso do Altano Branco, utilizamos uvas das zonas altas (Lamego, Alijó e Favaios) e, portanto, mais frescas. São locais onde as castas brancas estão tradicionalmente bem adaptadas, pois ali encontram condições para uma maturação bastante equilibrada. Esse fato, aliado a um controle rigoroso da evolução da maturação, permite a colheita no momento ótimo, quando os precursores aromáticos estão presentes na uva em concentração máxima. Esta colheita precoce possibilita também preservar uma parte importante da acidez natural das uvas, que vai permitir suportar a grande intensidade aromática dos futuros vinhos, conferindo-lhes equilíbrio e frescura de sabor.

O cultivo de uvas para Vinho do Porto é diferente do de uvas para vinhos tintos e brancos?

Não, a forma de cultivo é exatamente a mesma. As castas, as plantações e os locais de cultivo são iguais — a única diferença é que, para os vinhos tranquilos, colhemos as uvas até uma semana antes. No entanto, o cuidado na viticultura é o mesmo.

Os vinhos da linha Altano são sempre citados nas publicações especializadas como “Best Buys”. Como vocês conseguem manter uma qualidade tão superior e cobrar um preço acessível por esses vinhos?

Desde o início do projeto Douro DOC da Symington — de tintos e brancos — o mais importante para nós sempre foi colocar à disposição do consumidor vinhos com muita qualidade, que espelhassem toda a tradição da região do Douro e também o grande prestígio da empresa. O fato do Altano Tinto já ter sido destacado como “Best value” 7 vezes pela Wine Spectator é prova de que temos alcançado o nosso objetivo. Os quase 1.000 hectares de vinha, instalada nas melhores zonas da região, permite-nos dispor, em cada colheita, de matéria-prima muito boa, que é a base de qualquer vinho premium e super-premium. Uma política de controle rigoroso de custos, de produção de uvas imaculadas, aliada a uma vinificação cuidada ao mínimo detalhe em adegas especializadas, permitem a elaboração vinhos com uma qualidade média extremamente elevada, que são alvo de uma estratégia comercial ajustada, de modo a chegarem ao consumidor a preços bastante acessíveis.

"O Douro, além de ser uma região de clima quente é também uma região de montanha, com vinhas instaladas de 100 até 500 metros de altitude."

A família Symington tem 126 hectares que seguem as normas portuguesas de viticultura orgânica. Por que vocês resolveram apostar na prática sustentável? Acha que isso resulta em vinhos melhores?

A minha família está no Douro desde 1882 e pretende continuar por muito mais tempo, sempre com uma consciência social e ambiental que vai além do próprio negócio em si. Ao transformar as vinhas do Vale da Vilariça em Modo de Produção Biológico (orgânico), apostamos sobretudo na preservação do meio-ambiente e na sustentabilidade da atividade agrícola. Com o tempo, temos conseguido alguma recuperação da fauna e flora indígenas da região, o que é sempre um fator de encorajamento. Os vinhos que produzimos ali não são melhores nem piores, são vinhos distintos associados à especificidade da própria viticultura, continuando a mostrar todo o enorme potencial dos vinhos do Douro, em concentração, intensidade aromática e aptidão para envelhecer. No futuro, com a nova regulamentação recentemente aprovada, teremos um vinho biológico com uma certificação alargada também às práticas de vinificação.

Como vê a evolução dos vinhos portugueses?

Os vinhos finos portugueses têm tido uma evolução impressionante nos últimos anos, conquistando uma visibilidade internacional muito grande. Para isso, contribuiu o aumento da qualidade dos vinhos, mas também a maior facilidade em comunicar e passar a mensagem. No Douro, que é a região mais conhecida, a grande maioria dos vinhos é elaborada com castas portuguesas, o que faz com que os vinhos sejam únicos e de grande apelo para o consumidor.

Muita gente ainda tem dificuldade de entender as diferentes categorias de vinho do Porto. Você poderia resumir o que significa cada uma?

Para começar, existem 3 tipos de Vinho do Porto, como no caso do vinho tranquilo: tinto, branco e rosé. O branco e rosé são normalmente vinhos jovens, para serem consumidos como aperitivo. Quanto aos tintos, aí já é mais complexo, pois temos dois estilos, Ruby e Tawny. Ruby e Tawny são as palavras inglesas usadas para a cor dos vinhos, sendo o ruby vermelho escuro e o tawny mais alaranjado, âmbar. A diferença entre os dois estilos vem do envelhecimento dos vinhos. Enquanto os rubies são envelhecidos em grandes balseiros de madeira (entre 10.000 e 80.000 litros), os tawnies são envelhecidos em barricas de 550 litros. Esse envelhecimento vai dar aos vinhos características completamente diferentes, não só na cor, mas também nos aromas e sabores. Depois dentro de cada estilo existem diversas categorias. No caso do Ruby temos Ruby, Reserva Ruby, LBV, Crusted e Vintage. Falando do Tawny: Tawny, Reserva Tawny, 10, 20, 30, 40 anos e Colheitas.

E por quanto tempo é possível guardar um Vinho do Porto?

Na realidade, só uma percentagem pequena de Vinhos do Porto deve ser guardada na adega. É o caso dos Vintages, que são os vinhos de melhor qualidade, e nesse caso é possível guardá-los por várias décadas. Nós, por vezes, abrimos garrafas com mais de 50/60 anos e os vinhos estão excelentes, frescos e cheios de vida.

Que Vinho do Porto o senhor mais gosta?

Essa é sempre uma pergunta complicada, mas posso referir o excelente Graham’s Vintage 1963 e o vibrante Graham’s 20 anos, que é ótimo para se beber frio.

"O fato do Altano Tinto já ter sido destacado como “Best value” 7 vezes pela Wine Spectator é prova de que temos alcançado o nosso objetivo."
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Há dois séculos, a família Liger-Belair tem seguido uma tradição: seus membros costumam escolher a carreira de general do exército ou então de produtor de vinhos.

Hoje, o Domaine du Comte Liger-Belair possui 8,4 hectares de vinhas, entre elas o precioso vinhedo La Romanée, menor denominação de toda a França! Trata-se de um “monopole”, pois os Liger-Belair são os únicos a explorarem esse maravilhoso e minúsculo Grand Cru de apenas 0,8 hectare, vizinho do Domaine de la Romanée Conti. Robert Parker considera o La Romanée como “um dos mais especiais e atraentes vinhos feitos em toda a Borgonha” e chamou Louis-Michel de “superstar” da região.

É um dos mais raros vinhos do mundo. Louis-Michel elabora outros 11 vinhos em diferentes Premiers Crus e Grands Crus da Borgonha e também fundou um projeto inovador no Chile, a vinícola boutique Aristos. Na América do Sul, o produtor francês cria um dos mais comentados Chardonnays dos últimos tempos — o Duquesa D’A, que mereceu a nota máxima da revista Decanter (20/20 pontos) na safra 2008.

Com um humor peculiar — próprio das personalidades que, embora reconheçam suas qualidades, fazem questão de manter a simplicidade — Louis-Michel Liger-Belair nos concedeu esta interessante entrevista, que você confere a seguir.

Sua família é proprietária de alguns dos melhores vinhedos da Borgonha. Você pode nos contar um pouco sobre a história do Domaine du Comte Liger-Belair?

A história do domaine é muito antiga — remonta há dois séculos e sete gerações da família. Começou em 1815, quando Louis Liger-Belair, um ex-general das forças napoleônicas, se mudou para a Borgonha e comprou o Château de Vosne. Ele se apaixonou pela região e plantou diferentes parcelas de vinhedos em La Romanée e Chambertin. O patrimônio cresceu mais ainda quando seu filho Louis-Charles se casou com uma moça cuja família também possuía vinhedos em Nuits Saint Georges. No final do século XIX, nossa família possuía mais de 60 hectares de vinhedos — o que pode parecer pouco para vocês da América, mas na Borgonha significava, naquele tempo, ser um dos cinco maiores proprietários de vinhas da região. Tínhamos vinhedos em denominações cultuadas, como Chambertin, Clos Vougeot, Reignots, Suchots, Échezeaux, várias parcelas em Chambolle, além dos monopoles La Romanée, La Tâche e La Grande Rue. Por fim, na década de 1930, enfrentamos muitos problemas de sucessão e fomos obrigados a vender todas as propriedades em um leilão, em agosto de 1933. Foi somente anos depois que meu avô e seu irmão puderam recomprar La Romanée, Reignots e les Chaumes. Mas, naquela época, o negócio do vinho passava por um momento complicado com a quebra da bolsa de Nova York e a lei seca nos Estados Unidos. Era muito difícil viver somente do comércio de vinhos. Quando meu avô faleceu, em 1941 — ele foi morto na II Guerra Mundial — meu pai ainda era muito jovem para assumir a propriedade. Ele tinha somente 13 anos e mesmo mais tarde nunca quis entrar no mundo do vinho. Preferiu ser general. Na nossa família é assim: ou você trabalha com vinho ou vai para o Exército. Mas eu, aos 8 anos de idade, já pensava em viver na nossa propriedade em Vosne-Romanée, na Borgonha.

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Você não quis ser general, como seu pai? Como entrou para o mundo do vinho?

Como general de alta patente, meu pai foi enviado para a Alemanha, onde passei parte da minha infância. Eu não era feliz ali, mas adorava passar as férias em Vosne-Romanée, e por isso disse aos meus pais que gostaria de viver na Borgonha. Eles responderam: você provavelmente será um produtor ou um negociante de vinhos e, nesse caso, precisa se formar em engenharia primeiro. Me tornei engenheiro e, em seguida, enólogo. Em 2000 assumi o controle da propriedade, que naquela época vendia a produção de uvas para outras casas. Primeiro, recuperei 1,5 hectare em Vosne-Romanée La Colombière, Clos du Château e 1er Cru Les Chaumes. Em 2002, investi em Vosne-Romanee 1er Cru Aux Reignots e no monopólio La Romanée — os dois somam apenas 1,6 hectare. Em 2006, consegui arrendar um total de 5,5 hectares em diferentes apelações: Échezaux, Vosne-Romanée 1er Cru Les Suchots, Les Petits Monts e Les Brûlées, Nuits-Saint-Georges 1er Cru Aux Cras, Vosne-Romanée e Nuits-Saint Georges. Hoje temos 8,4 hectares que são cultivados orgânica e biodinamicamente. Um cavalo ajuda nos trabalhos de campo, em vez de tratores.

O que é possível esperar de um tinto da Borgonha?

A Pinot Noir é uma variedade muito difícil de ser cultivada — mas, por outro lado, você pode fazer o que quiser a partir dela, até mesmo vinhos escuros, poderosos e tânicos. Eu não gosto desse tipo de vinho porque eles não têm distinção e se parecem com muitos outros. O grande charme da Pinot Noir, na minha opinião, é o seu caráter extremamente elegante. E dependendo da área em que você está na Borgonha — seja de solo mais argiloso ou mais calcário — é preciso buscar uma vibração no paladar e, ao mesmo tempo, um equilíbrio entre álcool e acidez. Um não deve se sobrepor ao outro. Quando se consegue esse equilíbrio, é porque o vinho é muito bom.

É preciso ser um grande especialista em vinhos para conseguir apreciar um Borgonha?

Mesmo um principiante em vinhos consegue apreciar as qualidades de um tinto ou branco da Borgonha. Não é preciso ser um especialista. Mas quando você conhece um pouco mais sobre a região e também sobre vinhos em geral, passa a descobrir as sutilezas e o caráter único dos Borgonhas, perceber sua delicadeza e elegância e, assim, tirar o maior proveito da experiência. Com um ou dois anos provando vinhos da região é possível afinar os sentidos. E isso é ainda mais fácil para quem tem uma experiência anterior com vinhos mais potentes, do Novo Mundo, ou com aqueles de produção em larga escala. Vale a pena treinar o nariz e o palato com eles e, depois, avançar para os vinhos da Borgonha. As diferenças em estilo são muito evidentes.

Para escolher um Bordeaux, por exemplo, as pessoas, em geral, confiam na reputação dos châteaux , pois se o produtor é bom, isso basta. E na Borgonha, que é uma região com tantas nuances e peculiaridades, qual é a dica para acertar na escolha de um vinho, já que nem sempre os Grands Crus e Premiers Crus são realmente os melhores?

O grande segredo é conhecer o produtor. Você pode ter uma experiência extraordinária com um vinho classificado simplesmente como “villages”, mas de um bom produtor e, por outro lado, uma experiência não tão boa com um Grand Cru de um produtor mediano. Honestamente, isso é muito difícil de acontecer hoje em dia. Há 12 anos tenho feito vinhos na Borgonha e há 25 anos estou envolvido com a região. Ao longo desse tempo, tenho observado um enorme progresso aqui também, da mesma forma que aconteceu no resto do mundo. Atualmente, ao redor de 99% dos produtores fazem vinhos de grande categoria. Por isso, minha dica para os consumidores é primeiro descobrir os produtores que mais agradam e combinam com o seu gosto, e então explorar todos os diferentes vinhos que ele elabora. É um exercício fascinante, que acaba criando uma ligação profunda entre o enófilo e a maneira como esse produtor faz seus vinhos. É uma forma de descobrir e entender as diferenças sutis, ou não tão sutis, entre diferentes terroirs e categorias de vinho, na interpretação de um único produtor.

É impossível falar em Borgonha sem mencionar a palavra terroir. Por que o terroir dessa região é tão cultuado?

Terroir é uma combinação de elementos diferentes, como o clima e as variedades de uvas plantadas — no nosso caso, a Pinot Noir, que está na Borgonha há séculos e com certeza não pode ser contestada. Ficou claramente estabelecido que essa é a melhor variedade tinta para a região. O enólogo também é parte do terroir. Por fim, há o solo e subsolo, que têm uma influência muito determinante. Eu faço 12 vinhos diferentes e tenho 12 terroirs distintos à disposição. Não fui eu quem definiu isso. Foram os monges que, entre os séculos XIII e XV na Borgonha, experimentaram fazer vinhos em solos diferentes e separaram as denominações conforme as características que notavam nos vinhos. A partir disso, eles classificaram os terroirs. Esse legado é extremamente importante porque hoje tudo tem que ser imediato. Você planta um vinhedo e 3 anos depois já tem que fazer um vinho — isso acontece especialmente no Novo Mundo. Os monges contavam com a eternidade e, mesmo que passassem anos e anos em busca de um terroir, mesmo que não encontrassem nada, a próxima geração continuaria o trabalho, na tentativa de garimpar o melhor terroir. Sabemos que a Borgonha é uma imensa colina. Nos terrenos ao pé da colina, o solo é mais argiloso, e à medida que se avança em direção ao topo, a quantidade de calcário aumenta. No meio do caminho, há uma mistura dos dois elementos, além de pedras calcárias de tamanho perfeito, e é aí que ficam os Grands Crus. Por isso, dependendo de onde você estiver, mesmo que o solo seja argiloso-calcário, ele pode ser ligeiramente diferente e gerar vinhos distintos. E porque o homem também é parte do terroir, mesmo que você tenha dois vinhos da mesma exata parcela, mesma origem, se forem feitos por dois enólogos diferentes, serão fatalmente diferentes. Isso simplesmente por causa do “toque” do enólogo.

Você acredita que parte da importância do terroir da Borgonha se deve à variedade Pinot Noir que é capaz de expressar as diferenças mais sutis de cada terreno?

Sem dúvida. É muito difícil elaborar um Pinot Noir como os Borgonha. Para você ter uma ideia, eu sou consultor de um grande produtor chileno apenas para a uva Pinot Noir, e há um outro consultor para todas as outras variedades, que seguem basicamente a mesma receita de bolo. Eles foram buscar um enólogo da Borgonha para orientá-los unicamente em relação à Pinot simplesmente porque não entendiam essa uva. Lidar com a Pinot Noir é totalmente diferente de lidar com as outras variedades. Eles começaram a perceber que o local onde a videira está plantada e as condições do solo fazem uma enorme diferença no vinho final. Isto é algo que não se nota com tanta evidência, por exemplo, com a Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah.

"Minha dica para os consumidores é primeiro descobrir os produtores que mais agradam e combinam com o seu gosto, e então explorar todos os diferentes vinhos que ele elabora."

"Foram os monges que, entre os séculos XIII e XV na Borgonha, experimentaram fazer vinhos em solos diferentes e separaram as denominações conforme as características que notavam nos vinhos. A partir disso, eles classificaram os terroirs. Esse legado é extremamente importante."

O que há de tão especial no terroir de Vosne-Romanée?

O que poderia haver de tão especial em Vosne-Romanée? Eu não sei! (brinca). É notório que Vosne-Romanée faz vinhos melhores do que qualquer outra denominação da Borgonha. Eles são melhores porque têm uma ligeira elegância a mais — são vinhos com menos taninos do que os de Nuits Saint Georges, mas não são tão delicados como os Chambolle-Musigny. Os Vosne-Romanée são o meio termo entre essas duas outras renomadas denominações. Conte-nos um pouco sobre o Grand Cru La Romanée, a menor denominação de toda a França, situada ao lado do famoso Domaine de la Romanée-Conti, e berço de um dos mais disputados vinhos de todo o mundo. Esse Grand Cru possui um solo de argila e calcário em proporção correta, além de pedras em perfeito formato. Apesar de já termos feito muitas escavações profundas para conhecê-lo cada vez melhor, há algo a mais que é difícil de identificar e, por isso mesmo, impossível de ser reproduzido. Muita coisa pode ser fabricada no mundo de hoje, mas você não pode reproduzir um solo que não consegue definir com exatidão. Parte do charme desse Grand Cru pode estar também na orientação norte-sul do vinhedo, enquanto a maioria é leste-oeste. Ele está localizado em uma colina suave, nem demasiado nem pouco inclinada. Além disso, também há a história. Não é comum um vinhedo pertencer à mesma família durante dois séculos. Temos o histórico do vinhedo e estamos ligados a ele de uma maneira muito forte. Acredito que isso é algo que também faz diferença. O mais impressionante em seus vinhos é que eles têm uma cor suave, mas são cheios de aromas e, ao mesmo tempo, conseguem envelhecer por longos anos. As pessoas costumam achar que apenas vinhos poderosos e tânicos têm potencial de guarda. O que se perde quando se bebe seus vinhos demasiadamente jovens? Se quiséssemos, eu poderia fazer vinhos carregados em cor, densos e cheios de taninos — mas particularmente não gosto desse tipo de vinho que, aliás, estava muito na moda quando comecei a trabalhar como produtor. Me lembro que questionei Henri Jayer, um dos enólogos mais reputados da Borgonha e que era amigo do meu pai. E ele me disse: “Você deve elaborar vinhos dos quais gosta, porque se não puder vendê-los, pelo menos poderá bebê-los”. Então, em primeiro lugar, eu faço vinhos para mim e minha família. Henri Jayer me disse outra coisa: “Se o vinho não estiver bom já enquanto está na cuba, nunca ficará bom”. E ele estava totalmente certo, porque se o vinho for demasiadamente tânico, ele continuará duro daqui a dez anos. Não vai arredondar com os anos. Além disso, estou convicto de que 95% ou 97% do vinho é feito no vinhedo e, por isso, asseguro que a uva que entra na minha adega tenha tudo o que precisa. Procuro fazer tintos elegantes e vibrantes e que estejam prontos para serem apreciados desde jovens. A cor é clara porque a Pinot Noir é assim. Se você quiser fazer vinhos escuros, terá que recorrer a uma extração mecânica, o que acaba transferindo taninos duros para o vinho. Nossos tintos realmente envelhecem bem. Tive a prova disso em Nova York, há alguns anos, durante uma degustação de 30 safras do La Romanée, começando pela 1950, que foi elaborada por meu bisavô. Os vinhos mais antigos eram tão claros quanto os que produzimos hoje, e continuam deliciosos.

Você lançou um novo projeto no Chile, a vinícola boutique Aristos, cujos vinhos acabam de ser lançados, conquistando impressionantes elogios da crítica especializada. O Duquesa D’A Chardonnay 2008 mereceu a nota máxima da revista Decanter. Por que decidiu elaborar tintos e brancos na América do Sul, sendo que possui alguns dos melhores vinhedos da Borgonha?

Essa idéia surgiu quando eu estudava enologia. Foi um colega, François Massoc, um enólogo chileno muito talentoso, que me dizia que no Chile havia terroirs diferentes, e que podíamos explorá-los. Nessa época, acabei conhecendo um amigo do François, Pedro Parra, que se tornou um dos maiores especialistas em terroir do mundo, e nós três decidimos procurar juntos as áreas mais adequadas para cada variedade de uva a fim de elaborarmos o melhor vinho possível no Chile. Isso começou há uns dez anos e nos tomou bastante tempo — o que é incomum no Chile, onde já se faz vinhos apenas três anos depois de plantar o vinhedo. Nós levamos sete anos para começar porque antes fizemos muitos experimentos. Encontramos um excelente lugar para a Chardonnay e outro terroir fantástico para a Cabernet Sauvignon — acredite, estamos fazendo com essa cepa um vinho agradável que não tem aqueles taninos secos geralmente encontrados nos Cabernet Sauvignon do Novo Mundo. Quanto à Pinot Noir, estamos prestes a encontrar a área ideal para produzi-la — um lugar frio, frequentemente nublado, com alguma névoa. Tenho certeza de que faremos algo muito interessante. A Aristos é um projeto pioneiro de três amigos. Não teoms foco no lucro porque é um empreendimento de longo prazo. Mesmo assim, os resultados têm sido surpreendentes. Todo mundo diz que nossos vinhos são muito diferentes dos do Novo Mundo. Alguns amigos meus da Borgonha que avaliaram o Chardonnay em provas cegas comentaram: “humm... talvez seja um Premier Cru Puligny-Montrachet”. Eu, na verdade, não pretendo fazer um Borgonha no Chile. O que quero é elaborar vinhos frescos, elegantes e agradáveis. É um projeto muito divertido e, ao mesmo tempo, muito pequeno. Produzimos 3 mil garrafas de cada vinho. Não é nada!

"Eu, na verdade, não pretendo fazer um Borgonha no Chile. O que quero é elaborar vinhos frescos, elegantes e agradáveis."
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“Arqueólogo de Vinhas”

Telmo Rodríguez é uma das mais respeitadas personalidades do mundo do vinho. Os epítetos de “polêmico” e “enfant terrible” frequentemente são citados junto a seu nome, mas ao longo dos anos, a trajetória de Telmo mostrou que seu tipo de polêmica não é o da ruptura, e sim do resgate das antigas tradições perdidas do vinho espanhol. Telmo despreza o rótulo de ‘flying winemaker’, do qual já foi vítima (diz aceitar no máximo o termo “driving winemaker”), e não se deslumbra com a enorme repercussão que sua assinatura causa na atualidade. “O fato de seus vinhos serem classificados como excelentes a notáveis é um tributo ao seu talento e a sua atenção ao detalhe”, reconheceu Robert Parker. Em vez de “superenólogo”, Telmo prefere o título de “restaurador do vinho” ou “arqueólogo de vinhas”.

Membro de uma família de produtores da Rioja — proprietários da Granja Remelluri, uma bodega boutique que sempre esteve entre as preferidas de Parker — ele estudou em Bordeaux e trabalhou ao lado de alguns dos maiores nomes da França, como Jean-Louis Chave, no Rhône, e o Château Cos d’Estournel, em Bordeaux. Em vez de assumir logo de imediato a propriedade familiar, Telmo optou por um caminho próprio: correr a Espanha em busca de territórios históricos e originais, de variedades autóctones esquecidas e de métodos de vinificação seculares. Elaborar vinhos autênticos, que espelhem com fidelidade o seu território, tem sido sua maior obsessão. Telmo é um dos maiores defensores do terroir e da diversidade do vinho na Espanha.

Nesta entrevista irreverente, Telmo Rodríguez fala de seus surpreendentes projetos, desmonta o mito do enólogo-celebridade, tão comum hoje em dia, e reconhece: “trabalho para menos de 5% dos consumidores”.

No começo da carreira, você deixou a vinícola de sua família para descobrir novos terroirs em toda a Espanha. O que o moveu nesta aventura?

Espanha é um país vitivinícola bastante antigo — e mesmo assim, nos anos 1990, ainda havia muito para ser descoberto, ou redescoberto. Desde o século XIX o que tínhamos era praticamente apenas a Rioja, Jerez e grandes empresas industriais. Minha sensação era a de estar em um país selvagem. Esta aventura me trouxe a grande sorte de poder desbravar zonas maravilhosas, com vinhedos muito antigos — uma viticultura herdada da Idade Média.

O fato de elaborar tintos e brancos por toda a Espanha fez com que algumas pessoas comparassem você a um desses “flying winemakers”, que produzem vinhos de estilo internacional. Mas, o que você fez foi exatamente o oposto, resgatar vinhos que estavam esquecidos, quase extintos.

É verdade que me puseram esta etiqueta de flying winemaker, da qual eu não gosto nem um pouco. E quando isso apareceu em uma publicação importante, quem mais me defendeu foi o jornalista brasileiro Luiz Horta. Ele disse uma coisa que me emocionou: “como se pode tratar Telmo como flying winemaker, que é o profissional que destrói os vinhos autênticos, quando ele faz justamente o contrário: resgata vinhos históricos, como o Molino Real, do século XVIII”.

Eu me interesso muito pela cultura de nossos ancestrais. Tudo o que sabemos hoje foi transmitido a partir deles. E também acredito que os vinhos sejam frutos de lugares específicos. A origem de um grande vinho é a mágica de seu território. Esse mérito não é de um winemaker ou enólogo. O enólogo tem que saber respeitar o lugar. E em meus projetos, procuro respeitar e entender a história de cada local. Nesse sentido, sempre insisti em trabalhar com castas espanholas quando a moda na Espanha da época era plantar Cabernet e Merlot.

No momento atual, minha luta tem sido contra a [forma de condução da vinha em] espaldeira, porque acredito que a melhor forma de condução na Espanha é a vinha em vaso, muito antiga. Acredito que minha grande contribuição ao mundo do vinho tem sido devolver ao consumidor inteligente o gosto perdido de zonas espanholas incríveis.

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Como surgiu o Molino Real?

Este vinho é resultado de um trabalho que se assemelha ao de um arqueólogo, e está muito baseado no resgate da história. Antigamente, todos os grandes vinhos eram doces e, entre eles, havia o Mountain Wine, um vinho elaborado em Málaga e citado até por Shakespeare. Eu encarei a recuperação do Mountain Wine como um dever. Com o Molino Real conseguimos recriar este que é um dos grandes vinhos do mundo. Infelizmente as pessoas compreendem cada vez menos os vinhos de sobremesa. É uma pena. Mas o projeto teve grande êxito...

Certa vez perguntaram a Hugh Johnson qual era o melhor vinho que ele havia tomado na vida. Não era nem um La Tachê, nem um Romanée-Conti ou um Lafite. A resposta foi: o Mountain Wine de 1850. Então, enviei para Hugh Johnson a primeira safra do Molino Real e ele acabou escrevendo um artigo muito bonito no qual dizia que tinha visto um “fantasma do Mountain Wine 1850”. É uma história de sucesso em um certo sentido, embora eu continue investindo dinheiro todos os anos e perdendo dinheiro todos os anos com o Molino Real. Mesmo assim, esse vinho é um orgulho para mim. É preciso explicar às pessoas que elas deveriam guardar o Molino Real porque dentro de uns 20 anos descobrirão um dos grandes vinhos de sua adega.

Você acha possível elaborar vinhos que mostrem as qualidades de um terroir específico e que, ao mesmo tempo, sejam apreciados pela maioria das pessoas?

Eu não sei fazer outro tipo de vinho. Não acredito em receitas ou fórmulas. Molino Real, Pegaso ou Gaba do Xil, por exemplo, são vinhos que têm a qualidade de explicar seu respectivo lugar de origem. Não me interessam as mesclas standard de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot simplesmente porque são uma espécie de ‘garantia de sucesso’. Enquanto algumas bodegas da Rioja fazem, no mínimo, 1 milhão de garrafas — são bodegas industriais — todos os nossos vinhos são elaborados em pequenas quantidades. Eu sei que eu trabalho para menos de 5% dos consumidores de vinho, mas essa é a minha proposta.

Mas você também elabora vinhos de muito sucesso, conhecidos mundialmente como de boa relação qualidade-preço, como é o caso do branco Basa e do tinto Dehesa Gago.

Quando iniciei meu projeto, a única forma de conseguir produzir no futuro um grande vinho seria começando com um vinho de sucesso como é o Basa — foi o único vinho que deliberadamente planejamos em um estilo fácil de gostar. Estou muito orgulhoso porque o Basa me proporcionou muitas coisas boas. Ele e o tinto Dehesa Gago nos deram visibilidade e também vontade de fazer vinhos excepcionais, como Altos de Lanzaga, Pegaso e Molino Real.

O que você pensa sobre o culto aos enólogos, tão comum hoje em dia?

Vivemos em um mundo no qual os enólogos são tratados como verdadeiras estrelas. Para mim, um enólogo não tem essa importância. O vinho se faz sozinho; nossos ancestrais já executaram o trabalho de buscar os territórios mais adequados para o cultivo da videira e selecionaram as variedades mais apropriadas, e são as leveduras que transformam o açúcar em álcool, não o enólogo. O que precisamos fazer é observar e respeitar a natureza. Por isso, acho que não temos de nos dar tanta importância. Se tivermos a sorte de possuir um grande vinhedo, é como ganhar na loteria.

Há pouco tempo você retornou à Granja Remelluri para coordenar a produção dos vinhos desta propriedade de sua família, e eles têm recebido comentários elogiosos de toda a imprensa especializada. O quemudou desde a sua volta a Remelluri e como você compara os vinhos feitos ali com os vinhos da Compañia de Vinos Telmo Rodríguez?

Remelluri é um lugar excepcional, seguramente a vinícola mais antiga da Espanha. No século XIV — cinco séculos antes do surgimento das bodegas históricas da Rioja — Remelluri já era uma propriedade vitivinícola. E antes disso, os romanos, há dois mil anos, perceberam que ali havia uma energia especial e construíram um santuário muito importante. Todos os grandes vinhedos são lugares assim incríveis.

Meus pais tiveram a sorte de comprar a Granja Remelluri e, depois de restaurá-la, voltaram a produzir o vinho de Remelluri. A minha entrada na vinícola da família suscita algum interesse, mas o resultado de meu trabalho ali talvez possa ser percebido somente daqui uns 2 a 4 anos. Tenho a convicção de que esta propriedade tem a capacidade de se converter no vinho mítico da Rioja. É um vinhedo que nunca em sua história recebeu um herbicida, nem fertilizantes ou seleção clonal. Voltei para a Rioja com o espírito de escapar da onda industrial. É uma região um pouco como Champagne — que se tornou uma zona de marcas. Isso porque no século XIX, investidores chegaram ali com o intuito de produzir vinhos, mas não se fixaram e as bodegas, mesmo as centenárias, desgraçadamente se transformaram em bodegas industriais. Meu interesse em Rioja é me afastar do modelo industrial e recuperar o modelo humano do século XVIII. O projeto Lanzaga, da Compañia de Vinos Telmo Rodríguez, espelha isso. Lanzaga significa Lanciego, que é uma povoação na qual exploramos apenas 20 hectares, o que resulta em menos de 7 mil caixas, uma escala praticamente artesanal. Portanto, Lanzaga é o vinho de um vilarejo, diferentemente de Remelluri que é o vinho de uma propriedade. Quero fazer um projeto sensível, mas muito profundo, que consiste em explicar o gosto de um lugar e romper com a ideia de que uma degustação de Rioja seja uma degustação de marcas. É minha pequena revolução.

Antes do século XIX não era mais ou menos assim?

Sim. No século XVIII a vinha estava nas mãos de pequenos aristocratas que possuíam 5 hectares, 10 hectares, no máximo 20 hectares. Eu quero voltar a esse modelo de 15 ou 20 hectares, que é mais excitante e bonito. Queremos mostrar esta Rioja.

A grande maioria das pessoas, quando pensa em vinhos espanhóis, lembra de Rioja e Ribera del Duero, mas muita gente não sabe a diferença entre uma região e outra. Como você explicaria isso de uma forma simples?

As duas grandes regiões da Espanha eram, na verdade, Rioja e Jerez. E o êxito de ambas foi também sua destruição. Bastava o vinho ser um Rioja para ter garantia de sucesso comercial. O mercado demandava e todo mundo plantava indiscriminadamente, em locais bons ou ruins. Esse foi o maior erro tanto da Rioja como de Jerez. Espanha abriga uma centena de zonas incríveis, inclusive Ribera del Duero, que tem a imagem de ser uma região clássica, mas a denominação de origem Ribera del Duero é de 1984! Ribera é muito interessante, como Priorato, Toro, entre outras regiões espanholas únicas. A casta que se utiliza tanto em Rioja como em Ribera é Tempranillo, mas antigamente em Rioja se mesclava esta com outras 15 variedades – o que se perdeu por culpa das bodegas industriais. Rioja é uma zona com influência atlântica e mediterrânea; Ribera é uma zona de altitude com uma paisagem muito dramática. Uma não tem nada a ver com a outra, na verdade.

Além disso, dentro da própria Rioja há muitas Riojas, e por isso simplificar demais as coisas não corresponde a uma realidade de qualidade. Quando faço degustações com consumidores, a primeira coisa que as pessoas me perguntam é: “tem madeira americana ou francesa?”. Dão mais importância ao processo do que à origem. É necessário começar a falar de coisas mais interessantes e mais profundas. Rioja não é carvalho francês ou americano. Não se resume a mais meses ou menos meses em barrica. O que importa quantos dias o La Romanée-Conti fermenta ou o nome do seu enólogo? Temos que deixar para trás esse mundo do processo e começar a falar mais da origem. E na Rioja há muitas origens, em Ribera del Duero há centenas de Riberas del Duero. Este é um mundo muitíssimo mais complexo e gostoso para o consumidor.

Existe alguma região na qual você ainda não faz vinhos mas gostaria, por exemplo Jerez?

Eu gosto muito de Jerez. É uma zona interessante, de vinhos únicos. Pena que tenha sofrido um processo de industrialização que obrigou os viticultores artesãos a venderem seus vinhos às grandes bodegas. No entanto, neste momento está ocorrendo uma espécie de revolução, uma retomada importante dos pequenos produtores. Sobre os planos da Compañia de Vinos, acredito que já fizemos muita coisa. Temos projetos em 9 zonas vitivinícolas espanholas: Cigales, Rioja, Valdeorras, Ribera del Duero, Toro, Cebreros, Málaga, Alicante e Rueda, onde costumamos trabalhar com famílias que há centenas de anos cultivam pequenas propriedades. São projetos que requerem tempo, pois não existe uma fórmula para um grande vinho.

É como uma árvore, que fica bonita quando atinge 150 ou 200 anos de idade. Elas são plantadas para o futuro. Hoje, depois de quase 20 anos da inauguração da Compañia de Vinos, começamos a ver os primeiros frutos do nosso trabalho e a grande emoção é que dentro de mais 20 anos, eles serão muito melhores. Hoje em dia as pessoas dão muita importância para a uva.

Na sua opinião existe uma uva espanhola que seja a melhor?

Detesto desmontar sua pergunta, na minha opinião a uva não tem nenhuma importância. Os grandes vinhos nunca se resumem à variedade. Um grande Musigny não é um Pinot Noir, um grande Puligny não é um Chardonnay, um grande vinho de Didier Dagueneau não se resume à Sauvignon Blanc. Nossos ancestrais tiveram inteligência e capacidade de observação e decidiram plantar as variedades que melhor explicavam seus respectivos territórios. Em Hermitage é a Syrah, já em Chateauneuf du Pape identificaram 13 variedades. E um grande vinho de Rioja é também uma mescla de diversas uvas. Por isso, é muito pobre nos restringirmos à ideia de variedade. Assim como um papel em branco é uma ferramenta por meio da qual o escritor revela sua história, a variedade funciona como um veículo de transmissão do gosto de um lugar. Uma vez, um jornalista pouco culto, ao avaliar o Molino Real, disse que o vinho não se parecia com a Moscatel. Esta é uma casta que tem uma expressão muito característica em vinhos mais simples. O Molino Real é elaborado com a Moscatel, mas ele é tão profundo que o caráter da Moscatel dá lugar a uma expressão mil vezes mais complexa. Essa é a mágica do vinho. Se não fosse assim, todos os tintos e brancos seriam iguais.

Mas a uva não deixa de ser algo no qual o consumidor presta atenção hoje em dia. Tanto que muitos produtores em Rioja Alavesa arrancaram as vinhas de Garnacha, mesmo sabendo que essa variedade se dava muito bem na região, para plantar Tempranillo, que estava na moda.

Na contra-corrente, meus pais fizeram, nos anos 60, uma coisa muito importante: enxertaram no vinhedo de Remelluri todas as castas que já tinham sido plantadas na propriedade. Hoje temos uma vinha com 25 variedades. Por isso, falar apenas de uma ou três castas de Rioja é um empobrecimento. Não podemos esquecer que a viticultura mundial, nas últimas cinco décadas, tem servido a um único objetivo, que é dramático: trabalhar menos e produzir mais. Com isso, “matamos” muitos grandes vinhedos. Atualmente, há uma mudança de conceito em direção à produção de uvas em menor quantidade, privilegiando seu caráter, graças à viticultura biodinâmica e ao surgimento de produtores sensíveis. É um passo para acabar com um momento negro da viticultura global e restaurar a viticultura de verdade.

A Espanha tem uma grande quantidade de vinhedos antigos e a maior parte deles utiliza uma condução do tipo bush vine (vinha em vaso). No resto do mundo esse é um plantio raro. Existe alguma vantagem dessa forma de vinhedo?

Esta é minha nova luta. Acredito que um dos grandes patrimônios da Espanha sejam os vinhedos em vaso, ou “bush vines”. Eles são uma condução perfeita para o nosso clima e é preciso respeitá-los. Eu tenho uma aposta muita clara na preservação desses vinhedos originais. Na Granja Remelluri, por exemplo, estou fazendo uma coisa que para muitos é uma loucura: transformar as áreas plantadas em espaldeira em vinhas em vaso. Daqui 20 anos quero que todos os vinhedos sejam clássicos, em vaso e com mescla de variedades. Minha defesa não é simplesmente a favor do vaso — faço uma defesa do autêntico, do original, do patrimônio. Assim como respeitamos um edifício do século XVI que é de pedra, madeira e barro, o vinhedo também é um patrimônio e não devemos desvirtuá-lo, pasteurizá-lo. Estou muito orgulhoso pelo fato de que todos os meus vinhos de Rioja, Ribera del Duero e Toro são elaborados a partir de vinhedos em vaso. São vinhos que me dão prazer de produzir porque são um reflexo de 2 mil anos de história.

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A talentosa Laura Catena é filha de ninguém menos que… você já sabe: Nicolás Catena. E há muitos anos está ao lado do pai na direção da mais prestigiosa vinícola argentina, a mítica Catena Zapata, além de produzir seus próprios vinhos na bodega Luca, seu projeto pessoal, que também usa uvas dos vinhedos antigos da família. Laura cresceu em meio às videiras de Mendoza, assistindo ao cuidado de seu avô com as vinhas e depois à enorme revolução que seu pai promoveu no vinho argentino. Em uma região hoje efervescente, a família Catena é uma inspiração para muitos viticultores, e mantém laços de amizade com muitas outras famílias vinhateiras de Mendoza. Laura acaba de lançar seu livro “Vino Argentino” nos Estados Unidos pela editora Chronicle Books, e gentilmente nos concedeu esta entrevista, que você confere ao lado.

Ao ler o seu novo livro, Vino Argentino, temos a impressão de que o mundo do vinho na Argentina é uma grande família. Você poderia nos contar como as coisas acontecem nesta excitante e emergente região vinícola?

Meu pai, Nicolás Catena, começou o movimento pela qualidade na Argentina nos anos 80. Seu objetivo era de elevar o status de Mendoza para que alcançasse as melhores regiões produtoras de vinho do mundo, ao estilo do que Angelo Gaja fez pelo Piemonte e Robert Mondavi por Napa. Em Mendoza, temos a grande sorte de que as regiões mais altas são extraordinárias para se fazer grandes vinhos — por causa de seu clima ameno, da intensa luz solar e dos solos pouco férteis. Isto nos permite manter os rendimentos baixos e uma alta concentração em cada uva. Todos em Mendoza reconhecem o papel que meu pai desempenhou nesta revolução, e hoje existem diversos produtores fazendo vinhos fantásticos na nossa região. Eu queria celebrar esta comunidade tão apaixonada de produtores em meu livro Vino Argentino. Hoje somos todos unidos pelo desejo de criar alguns dos melhores vinhos do mundo. E quando nos juntamos, produtores de várias vinícolas de Mendoza, é só sobre isso que conversamos: como fazer vinhos cada vez melhores. Quando chove granizo ou quando temos um tempo muito ruim, todos rezamos e ligamos uns para os outros para saber como está a situação nas diversas regiões. Somos uma comunidade muito unida — mas isto não quer dizer que não compitamos entre nós para sermos os melhores!

Os imigrantes europeus levaram a cultura do vinho para a Argentina há muito tempo. Muitos anos depois, Nicolás Catena fez uma verdadeira revolução em Mendoza, mudando o estilo de quase todos os vinhos produzidos no país. Você diria que a antiga influência da Itália e Espanha já não existe mais, ou ainda é possível encontrar traços deste estilo nos vinhos produzidos hoje na Argentina?

A principal influência de nossos antepassados italianos e espanhóis é que, graças a eles, consideramos o vinho como parte de nossa dieta diária e de nossa cultura. O vinho é feito para ser apreciado entre familiares e amigos. Também herdamos dos nossos antepassados italianos o lado artesanal da viticultura e da vinificação, bem como a apreciação da boa culinária — por exemplo, meu bisavô Nicola Catena ensinou o meu avô Domigo Vicente Catena, que por sua vez ensinou o meu irmão Ernesto Catena a fazer prosciutto. Minha bisavó Maria Napoli ensinou a minha mãe, que depois ensinaria a mim, a fazer pesto Genovese. Um dos motivos pelos quais nos empenhamos tanto em fazer um Malbec de classe mundial é que esta foi a primeira variedade que meu bisavô Nicola Catena plantou na Argentina, e ele realmente acreditava que poderia fazer um vinho importante. Quando ninguém ligava para a Malbec, nossa família já valorizava esta casta.

Catena é uma das poucas vinícolas de maior imporância na Argentina ainda controladas por uma família. Você considera Catena Zapata uma vinícola familiar? Qual foi a importância da famíia para o sucesso de Catena?

Sim, já estamos preparando a quinta geração! A família é muito importante, não só porque o conhecimento é transmitido de uma geração para outra, mas também porque existe uma paixão envolvida, quando pensamos que estamos construindo algo para as gerações futuras. Também nos lembramos dos tempos difíceis como uma família, como quando a inflação era tão alta que era mais barato deixar as uvas caírem ao chão — e meu avô fazia a colheita de qualquer forma. Todos sabemos o quanto é difícil ter sucesso em um negócio porque estas histórias de trabalho duro e sacrifício são contadas de uma geração para a outra. É por isso que eu digo para todos os funcionários da vinícola que não podemos contar com o sucesso que já temos ou parar de tentar melhorar, mesmo quando o negócio está crescendo e indo bem.

Catena Zapata foi uma das pioneiras no estudo da influência da altitude nas vinhas. Qual o maior benefício de se plantar em grandes altitudes? É o mesmo para todas as variedades? Qual o maior desafio nas grandes altitudes?

Altitudes elevadas trazem um clima mais ameno e maior intensidade solar. Um clima fresco permite que as uvas mantenham acidez — o que é muito bom para a Chardonnay e a Malbec. E como o amadurecimento acontece mais devagar, os vinhos têm taninos mais ricos e mais concentração. A luz solar intensa possibilita maior fotosíntese nas folhas, o que resulta em mais energia para a vinha e cascas mais grossas nas uvas. As cascas contêm taninos e quanto mais taninos, mais concentrados e com maior potencial de guarda serao os vinhos, o que é o objetivo de qualquer enólogo.

O maior desafio nas grandes altitudes é que perto das montanhas os solos são bastante inférteis e cheios de pedras. As vinhas naturalmente sofrem para encontrar água e quando plantamos um vinhedo temos que cavar as pedras à mão, porque elas são tão grandes... Estes solos são ideais para termos plantas de baixo rendimento, com uma produção extremamente pequena de frutas excelentes. Mas temos que tomar cuidado para que estas plantas não morram por causa de todo o stress. Além disso, os agricultores não podem trabalhar por muito tempo em grandes altitudes. Com certeza ficam mais cansados durante a colheita ou quando têm que trabalhar nestes vinhedos.

Algumas pessoas afirmam que o conceito de terroir é exclusivo aos vinhos do Velho Mundo. De que maneira os vinhos de Catena Zapata provam o contrario?

Os solos de Mendoza são muito heterogêneos — ou seja, são muito diferentes de um vinhedo para outro e até de uma fileira para outra dentro do mesmo vinhedo! É possível ter uma fileira de um vinhedo que produz plantas de qualidade A+ e outra fileira no mesmo vinhedo produzindo qualidade C. Isso está relacionado à profundidade, à composição do solo e à seleção de plantas. O termo ‘terroir’ se refere justamente a isso: ao fato de que alguns locais são mais especiais que outros, e que os vinhos de determinados lugares têm um sabor e aroma distintos. Acredito que qualquer pessoa que provar o Nicolás Catena Zapata ou o Angelica Zapata Malbec poderá reconhecer o vinho de um ano para o outro, e isso tem a ver com os lotes e fileiras específicos dentro dos nosso vinhedos, de onde colhemos as uvas para estes vinhos. Vários famosos produtores franceses estão fazendo vinhos em Mendoza hoje em dia, como Michel Rolland, Eric de Rothschild e Alfred Bonnie, e todos acreditam que Mendoza tem um extraordinário terroir. A formação geológica da Terra aconteceu há milhões de anos, quando não havia nações ou fronteiras nacionais, e muito menos nacionalismos. O terroir está ligado ao solo e ao clima, e naturalmente uma grande região vinícola como Mendoza tem locais melhores, ou com personalidade peculiar. Isto pode ser visto claramente em nossos vinhos — por exemplo, nos novos “Malbec de vinhedo”, como o Nicasia e o Adrianna, tão diferentes entre si.

Qual o peso de ser sucessora de um ícone do vinho como o seu pai? Como você chegou a sua posição dentro da Catena Zapata? É mais fácil ou mais difícil ser filha de Nicolás Catena?

Bem, é definitivamente mais fácil. Quando se tem um pai com o meu, ensinando tudo o que ele sabe, você tem uma vantagem enorme na vida! Ele é o melhor professor que eu já tive. Ele até me dá conselhos sobre casamento — geralmente dizendo que eu preciso cuidar melhor do meu querido marido — e meu marido fica muito grato e está sempre agradecendo o meu pai por ficar do seu lado!

Já foi dito que os vinhos da Argentina se saem melhor em degustações do que à mesa, acompanhando a comida. Por outro lado, os argentinos sempre beberam vinho junto com as refeições. Qual a sua opinião sobre comida e vinhos argentinos? Qual a sua comida e vinho argentino preferidos?

Eu geralmente prefiro beber vinho tintos com a comida. E gosto de todos os tipos de comida, do Asado (churrasco) à comida de Alain Ducasse ao simples arroz e feijão. Nossos vinhos seguem mais um estilo do Velho Mundo do que do Novo, então os níveis de álcool tendem a ser bem mais moderados — são feitos para serem bebidos com comida. Se estou apenas comendo um aperitivo ou tomando um vinho sozinho, prefiro um espumante ou um vinho como o Catena Chardonnay, o Alamos Torrontés ou um Albariño espanhol.

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É difícil conciliar o trabalho na vinícola com a vida em família, as responsabilidades de mãe?

Sim, é muito difícil. A grande vantagem de trabalhar em família é que quando estou em Mendoza eu tenho uma babá com um PhD em Economia, e seu nome é Nicolás Catena! Como geralmente estou na vinícola ou nos vinhedos durante o dia, meu pai pega as crianças na escola (tenho três, dois meninos –Luca e Dante – e uma menina, Nicola) e almoça com eles todos os dias.

Considerando tudo o que a Catena Zapata tem conquistado, você acredita que ainda há trabalho a fazer? Existe tem algum projeto que você ainda gostaria de desenvolver?

Sim, sim, nós nunca paramos. Estamos tentando selecionar não só as melhores fileiras para os nossos vinhos top, como também fazemos uma seleção de planta por planta — marcamos as melhores com uma fita vermelha e colhemos estas plantas somente para os melhores vinhos Catena Zapata. Plantaremos um vinhedo novo este ano, a uma altitude maior que 1,600 metros, e estamos explorando outras regiões da Argentina como Salta, Patagônia e La Rioja — sempre focados na qualidade. E, claro, além de meu trabalho em Catena Zapata, continuo firmemente comprometida à vinícola Luca, cujo nome é uma homenagem ao meu filho mais velho, e onde busco produzir vinhos de alguns dos melhores vinhedos de vinhas antigas da família no vale do Uco.

Na sua opinião, qual é a maior qualidade do terroir de Mendoza?

O clima fresco da montanha e os solos pouco férteis. É por isso que temos vinhos concentrados, com boa acidez e que são ricos em aromas e sabores, mas que também podem envelhecer por um longo tempo. Contudo, como existe uma incrível variedade e diversidade nos solos, somente os melhores terroirs e vinhedos são capazes de produzir vinhos da mais alta qualidade aqui.

Você tem interesse em alguma outra região vinícola além de Mendoza? Você tem planos de desenvolver algum projeto fora da Argentina?

Não tenho certeza sobre sair da Argentina (eu sempre tive uma fantasia de produzir vinhos espumantes no Brasil!) [risos…] Ainda há muito o que descobrir aqui.

Qual o seu vinho preferido de Catena Zapata? Por que?

O Catena Zapata Estiba Reservada 1992. A Cabernet Sauvignon do vinhedo La Pirámide em Agrelo foi o primeiro de nossos vinhos pelo qual me apaixonei. Consigo reconhecer este componente em qualquer degustação às cegas. São vinhas antigas plantadas em um solo único de argila misturado com calcário e pedras. Fazemos uma quantidade muito pequena deste vinho, e ele é muito especial para mim — toda vez que o bebo.

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O carismático, jovem e simpaticíssimo Alberto Tasca esteve recentemente no Brasil — pela primeira vez — para apresentar os premiados vinhos de suas propriedades na Sicília. Representante da oitava geração da família no comando da mais prestigiosa vinícola siciliana, Tasca d’Almerita, Alberto transborda entusiasmo e apreciação ao falar das tradições da ilha, ou ao contar sobre todos os novos projetos nos quais está atualmente envolvido — desde vinhedos em novas regiões da Sicília, restauração de vinhedos fenícios históricos na ilha de Mothia, projetos de agricultura sustentável e até carros de corrida. Não parece haver nada em que este brilhante dínamo, que revolucionou sua vinícola familiar, não esteja envolvido. Em seus dois séculos de existência, Tasca d’Almerita parece nunca ter estado em fase melhor. Durante sua visita, Alberto Tasca nos concedeu esta interessante entrevista, que você confere ao lado.

Antes de estar à frente da Tasca d’Almerita, você foi piloto de corrida. Houve alguma lição que você tenha tirado de sua carreira de piloto e use hoje para fazer vinhos melhores?

[risadas…] As corridas de automóvel me ensinaram a ter um espírito competitivo, mas sobretudo também o “fairplay” esportivo. Acho que a pista ensina também a cuidar muito dos detalhes, mesmo das minúcias aparentemente mais insignificantes. Tudo isto somado acaba fazendo muita diferença no resultado final, que algumas vezes depende de frações de segundo. Na época em que eu corria, o grande piloto de referência para o mundo inteiro era Ayrton Senna, e no automobilismo, foi ele que nos ensinou a enorme importância de cuidar dos detalhes, além de coisas também fundamentais, como o espírito de equipe e um bom relacionamento com todo o time.

A Sicília costumava ser fonte de vinhos muito concentrados e potentes, que chegaram até mesmo a serem usados para “encorpar” os vinhos leves de outras regiões. Como é o vinho hoje na Sicília, e o que mudou?

Apesar de não ser uma ilha grande, todos costumamos dizer que a Sicília é um continente — e um continente muito variado. É claro que estes vinhos com estrutura muito imponente são um reflexo da maturação fácil das uvas, graças ao clima quente e ensolarado. Não somente os vinhos, mas todos os frutos da terra siciliana são muito saborosos e concentrados. Entretanto, hoje também conseguimos fazer com que as pessoas descubram muitos outros territórios como o Etna, Regaleali, Monreale e outros situados em altas colinas, que dão origem a vinhos de grande elegância e longevidade. E ainda estamos no início nestas regiões. Além de todas estas diferenças de território, a Sicília também é muito ricas em um enorme patrimônio de castas: Nero d’Avola, Inzolia, Grillo, Cataratto, Nerello Mascalese, Nero Cappuccio, Malvasia, Syrah, Zibibbo e tantas outras… Apesar de ser uma pequena ilha, é um continente.

Você levou quase dez anos desde que entrou na Tasca d’Almerita até se tornar presidente da vinícola. Quão importantes foram estes anos iniciais para todas as mudanças que você depois viria a promover?

O mundo do vinho — aquele autêntico — precisa saber pensar a longo prazo. Eu represento a oitava geração de nossa família que se ocupa da vitivinicultura. Antes de mim, outros fizeram coisas maravilhosas, inventando, descobrindo, inovando nosso setor. Por isto, quando cheguei, encontrei um “DNA” muito forte na vinícola, e minha única alternativa era segui-lo, tentando, porém, fazer isto com qualidade. Acho que minha sorte foi poder ter trabalhado com meu avô, meu pai e meu irmão — três gerações juntas — e também ter podido contar com o apoio deles para que eu pudesse me exprimir. É verdade que eu fiz muitas mudanças em nossa vinícola familiar, mas também tenho a consciência de que estou somente de passagem na história da propriedade, e espero não trair nossas tradições. Na realidade todas nossas inovações se baseiam sobretudo no respeito total à Natureza. Não são necessariamente inovações no sentido tecnológico, mas sim na direção de permitir que o território se exprima de forma cada vez mais completa. Como eu disse, o território da Sicília é muito variado e também único — este é nosso verdadeiro patrimônio.

Tasca d’Almerita tem dois tipos distintos de vinhos: um é mais tradicional, como o Regaleali, e o outro mais moderno, como o prestigiado Cabernet Sauvignon. Como é possível obter tanto sucesso em ambos estilos?

O Cabernet Sauvignon e o Chardonnay foram introduzidos na Sicília por meu pai, no início dos anos 1980. Estas castas simbolizam a posibilidade de ler o nosso território através de um denominador comum e muito difundido — como se estas uvas, presentes em tantas partes, fossem um meio neutro através do qual a individualidade da Sicília pudesse ser reconhecida, um rolo de filme onde nossa imagem apareceria. Para que tenha sucesso, um vinho tem que ter uma proposta de vida muito clara; não deve apenas seguir uma moda ou uma tendência de mercado. O nosso Cabernet Sauvignon quer descrever o território em que está cultivado, fazendo com que a leitura deste território se torne mais fácil e universal, através do filtro de uma uva muito difundida. Ele tem uma individualidade claramente siciliana, e acho que esta é a principal razão de seu sucesso.

Você expandiu os domínios de sua família com propriedades em outras regiões da Sicília. Você poderia nos contar um pouco sobre estes novos projetos?

A Sicília é um continente cheio de territórios, culturas, climas e pessoas com essências muito diversas. Há vulcões, pequenas ilhas, argila, terrenos calcáreos, terrenos arenosos, colinas altas e vinhedos ao nível do mar, zonas chuvosas e zonas mais secas… Nossa missão é fazer com que tudo isto possa ser conhecido e descoberto através de um copo de vinho. E claro que é essencial também conseguir se divertir através de todas estas experiências tão diferentes entre si. Mas eu diria que o divertimento é a parte fácil — é inerente ao vinho! O importante é conseguir exprimir as diferenças regionais através dele. Entre as novas regiões da Sicília, uma das mais excitantes é o Etna, que com seus vinhedos de altitude produz vinhos muito elegantes com a casta Nerello Mascalese, principalmente. Lá está nossa propriedade “Tascante”. Há também a belíssima ilha Salina, no arquipélago eólico, com suas sete pequenas ilhas ao nordeste da Sicília. Lá encontramos vinhedos velhos de Malvasia, que produzem um vinho incrivelmente fresco, fragante e aromático. Há também a ilha de Mothia, no oeste, a uns 40 quilômetros de distância de Trapani, onde fomos escolhidos pela fundação Whitaker para recuperar e restaurar os vinhedos históricos da casta Grillo — que produzem o famoso “vinho dos fenícios” de Mothia. E claro que há nossa tradicional propriedade Regaleali, uma terra belíssima, de altitude, com um microclima ideal para o cultivo de vinhos de alta qualidade e muita elegância. A diversidade que encontramos na Sicília é mesmo impressionante. Para fazer um projeto completamente novo, nunca sentimos necessidade de sair daqui, pois ainda há tanto a ser descoberto e explorado!

A Nero d’Avola é a mais famosa das variedades tintas da Sicília. O que um consumidor deveria buscar em num bom Nero d’Avola?

Isso depende do território de proveniência do vinho. É possível encontrar Nero d’Avola muito diferentes entre si — alguns muito maduros, com aromas de frutas maduras, como aqueles cultivados perto da costa; ou outros muito austeros, como os que provêm das altas colinas. É verdade que muitos consumidores lembram dos Nero d’Avola mais exuberantes, mas como eu não me canso de repetir — talvez como um incentivo para que vocês venham nos visitar! — a Sicília é um continente muito vasto e variado!

O Rosso del Conte é um dos poucos vinhos do Sul da Itália com um longo registro de sucesso, que de acordo com Robert Parker, “comprovou o grande potencial da Nero d’Avola e dos vinhos sicilianos em geral”. O que os outros produtores pensaram, 30 anos atrás, quando a Tasca d’Almerita decidiu produzir um vinho tão ambicioso com uvas Nero d’Avola?

Na verdade o Rosso del Conte é somente nosso “super Tasca”. Eu acho que o Rosso del Conte foi um vinho muito inovador em termos de qualidade — não só na Sicília, mas para toda a Itália. Acabou se transformando em uma grande referência para nossa região, e em um ícone apreciado fora dos confins da Sicília também. Mas eu sou muito jovem, não sei o que os outros produtores pensaram 30 anos atrás! Hoje todos conhecem o potencial da Nero d’Avola.

Quais são os fatores mais importantes a considerar quando se escolhe um vinhedo na Sicília?

Além de fatores geológicos e geográficos como altitude e tipo de solo, com certeza nossa própria atitude frente ao projeto. Nós buscamos coisas únicas e bem distintas, com personalidade forte, e que tenham um pouco do nosso toque pessoal — que combinem com o estilo de nossa família. Acho que o vinho, para quem o produz, não é de forma nenhuma um negócio (mesmo se, no final, as contas precisem fechar). É uma paixão inata, e um desafio que se trava com si mesmo. Se não houver entusiasmo e interesse pessoal, não é possível colocar toda a energia necessária para levar adiante um projeto novo. Parece subjetivo, mas eu diria que este é o fator mais importante, e no final é este entusiasmo que vai nos permitir fazer vinhos únicos, com personalidade. E também é isto que nos alegra em nosso trabalho.

Quais são as novas regiões sicilianas mais interessantes agora? Há ainda outras novas regiões com potencial inexplorado?

Muitos territórios sicilianos ainda estão para serem descobertos, conhecidos e valorizados, e nós estamos muito concentrados sobretudo no “made in Sicily”. Aqui há uma riqueza de tradições e zonas diferentes, e este é nosso modo de contribuir à diversidade da Itália e ao chamado “made in Italy”.

Algumas vezes a Sicília é vista como o “Novo Mundo da Itália”. Mas Tasca d’Almerita e suas propriedades foram estabelecidas há quase dois séculos, e produzem muitos vinhos com um claro charme e elegância do “Velho Mundo”. O que é diferente em Tasca d’Almerita?

Hum….. Tasca d’Almerita é só Tasca d’Almerita — eu não sei o que é diferente, só posso dizer que Tasca d’Almerita é uma propriedade que olha muito longe, apesar de conhecer a importância de saber contextualizar suas próprias experiências. Pessoalmente sinto que somos uma vinícola muito jovem, ainda que tenhamos uma longa história. Talvez porque conheço todos os projetos nos quais estamos trabalhando, como a agricultura sustentável, isso me faz ver tudo com um espírito mais jovem. Mas na família sempre houve este DNA de inovar, de não seguir meras tendências de curto prazo ou de mercado, e sim de identificar o que existe de mais autêntico e levar isto adiante. Nós adoramos o que fazemos! Eu aprendi que a melhor maneira de explicar Tasca é trazer as pessoas aqui. É uma experiência tão diferente, tão ligada a um território particular, que é preciso vivê-la para conhecê-la verdadeiramente.

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Alguns de seus vinhos, incluindo os brancos, têm um grande frescor. Como isso é possível em uma região quente?

É possível graças à altitude e à zonação — plantar as variedades certas no lugar certo, colher no momento certo…. Estes vinhos com grande frescor nos agradam muito, e por isto muito tempo atrás tomamos este caminho.

Depois do sucesso que tiveram nos últimos anos, você tem a sensação de que o trabalho terminou, ou você sente que ainda há lugar para novos projetos e melhorias?

Bom, quando você acha que o trabalho acabou, aí é o fim da estrada. Nós pensamos que ainda podemos melhorar muito, e por isto é que nos sentimos jovens! [risos] O trabalho ainda só está começando, desde 1830.

Qual é o enfoque da Tasca d’Almeirta frente às diferenças climáticas de cada safra?

As safras são sempre diferentes uma das outras, e nós é que temos que saber interagir com estas variações que não podemos controlar de forma preventiva. A única alternativa é estarmos sempre prontos e sermos versáteis em tentar obter o melhor possível daquilo que a Natureza nos oferece. Amamos a Natureza e somos muito dedicados em respeitá-la. Eu diria que muito mais do que boas ou más, as safras são fáceis ou difíceis…. mas nem sempre difícil quer dizer pior.

Sabemos que muito frequentemente sua família costuma se reunir ao redor de uma mesa e beber todos juntos um vinho para formar uma opinião completa. Mas quais pontos são principalmente levados em conta nesta avaliação?

O vinho é avaliado em sua capacidade de satisfazer os sentidos: o olfato e o paladar, principalmente… Os sentidos mudam como tempo, com o aumento das experiências que temos ao amadurecer — perfumes, comidas e bebidas diversas nos ajudam a crescer neste percurso. Com toda esta bagagem de experiência, ficamos mais aptos a julgar um vinho imediatamente, frente a tudo o que vivemos antes, ainda que todas as experiências estejam presentes em nossa avaliação de forma apenas inconsciente. Acho que o que quero dizer é que muitos gostos são aprendidos, ou melhor, amadurecem com o tempo, com a idade e com as experiências. É sempre frente a todas estas experiências passadas que qualquer vinho acaba sendo avaliado. É impossível desvencilhar a apreciação de um vinho agora de tudo o que já vivemos antes. E sabemos que nossos clientes também experimentam um vinho passando pelo mesmo processo. Bem, em nossa família temos pessoas de diferentes idades, com experiências diferentes, ainda que todos compartilhem desta longa tradição siciliana. Provar um vinho ao redor de uma mesa, com tantos membros da família, com certeza traz uma riqueza impressionante de experiências e opiniões. É um “cérebro coletivo”. E não deixa de ser uma tradição.

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RIO DE JANEIRO

MISTRAL RIO DE JANEIRO

BELO HORIZONTE

MISTRAL BELO HORIZONTE
  • Rua Claudio Manoel, 723 - Savassi - Belo Horizonte (Estacionamento no local)
  • Tel: (31) 3115-2100
  • Horário De Funcionamento: Segunda a sábado - 10h - 19h
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BRASÍLIA

MISTRAL BELO HORIZONTE
  • SHIS/ Sul QI 09 bloco J Lojas 03 e 04 - Brasília
  • Tel: (61) 3701-1000
  • Horário De Funcionamento: Segunda a sábado - 10h - 19h
  • Sádos: 10h - 14h

GOIÂNIA

MISTRAL GOIÂNIA
  • Parceria Casa Baru - Avenida República do Líbano, 2519 - Quadra 8, Lote 04/06 - Setor Oeste - Goiânia - GO (Estacionamento no Local)
  • Tel: (62) 3638-0400
  • Horário De Funcionamento: Terça a sábado - 9h - 21h
  • Domingos: 9h - 16h

Representantes em São Paulo

Ribeirão Preto

Paulo Francisco Bolonha

(16) 3402-2294

(16) 99156-8142

Bauru
Bragança Paulista e Regiões

Isabela Barreto

(19) 99214-5440

Campinas
Piracicaba
Litoral Norte e Vale do Paraíba

Flávio Queiroz

(12) 98142-8181

Litoral Sul e Grande ABC

José W. Weisshaupt Bibar

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